Quarta-feira, 22 de Junho de 2011

Brincar ao Watergate no Facebook

É muito curioso quando alguém que conhecemos se vê envolvido em querelas públicas. Assistimos a um desfilar de acusações e defesas que vão da psicologia à Dr Phil ao simples insulto. E concluímos que a maior parte das vezes a opinião das gentes não diz respeito ao problema ou à pessoa em questão - é antes uma forma de destilar a própria amargura.

Pensei nisso quando li, por toda a blogosfera, que o Rui Tavares se mantém no Parlamento Europeu pelo tacho. O Rui, diga-se, não é o melhor dos meus amigos. Por muitas razões, duas das quais se podem enunciar assim: primeiro porque ele tem melhor gente com quem perder o seu tempo; depois porque eu não tenho tempo ou paciência para ser o melhor amigo de ninguém.

Presumo que a história seja conhecida: num belo dia Francisco Louçã, que eu não conhecia mas passei a conhecer graças a este caso, resolveu corrigir no Facebook o erro de um jornalista. O dito, num texto, tinha-se enganado acerca dos fundadores do Bloco de Esquerda. Segundo Louçã o jornalista tinha sido induzido em erro por Rui Tavares. Louçã conclui que "é simplesmente uma falsificação a tentativa de retirar o Fernando [Rosas] desta história e de a refazer com novos protagonistas". Tavares reagiu dizendo que enquanto historiador nunca faltaria à verdade e que não conversou com jornalista algum. E exigiu que Louçã se retractasse, o que este não fez. 

(O jornalista cometeu suicídio na madrugada seguinte, deixando namorada, namorado, dois gatinhos siameses que sabem recitar a Bíblia em Aramaico e um relógio do Ben 10.)

O argumento do Rui não lhe serve de muito: haverá certamente historiadores capazes de deturpar a história, bem como economistas capazes de interpretar mal números, notícias, ou mesmo a fé dos humanos em demagogos sem escrúpulos. Contudo, para quem conhece o Rui, a história de Louçã não faz muito sentido.

Tentando não me parecer demasiado com o Dr Phill, arriscaria dizer que não está nas moléculas constitutivas do Rui perder tempo a tentar enganar jornalistas acerca da história do Bloco; também desconfio que nunca lhe ocorreria que um jornalista de política não soubesse a história da fundação do Bloco; e menos lhe ocorreria, habituado que está a fazer os trabalhos de casa, que um jornalista não verificasse uma informação; e desconfio que se se desse ao trabalho de tentar manipular quem quer que fosse para atingir a direcção do Bloco não seria estúpido ao ponto de ser tão pouco subtil e tão facilmente apanhado. 

Porque - e este argumento, para qualquer tipo que conheça minimamente o Rui, parece óbvio - o Rui não é estúpido nem politiqueiro, em parte porque ser politiqueiro implica ser-se estúpido. Implica acreditar que se é capaz de enganar o povo como quem engana um cãozinho esfomeado. E fazê-lo de forma esteticamente repugnante, como os realizadores que fazem slow motion no momento em que uma bala entra num corpo. Não sendo estúpido, o Rui perceberia de imediato que dar uma informação pornograficamente errada e que facilmente se perceberia só poder partir da sua própria mente tirânica e doentia seria meio caminho andado para destruir toda a sua reputação. 

Mas o Rui não é estúpido. É até um tipo bastante inteligente, que tanto quanto me foi dado ver não tem paciência para perder tempo com idiotices - embora, imagino, por vezes tenha de perder tempo com idiotas. Sei isto porque ele já perdeu tempo comigo.

O final da história é caricato: metade dos opinadores acreditam que o Rui se mantém no Parlamento Europeu pelo "tacho". Talvez. Mas nesse caso teremos de corrigir: por dois terços do techo. É que o outro terço o Rui usa-o para criar bolsas de estudo a quem delas precisa. No que é caso único tipo em Portugal. 

É curioso também ver historiadores como o José Neves, que é certamente muito mais amigo do Rui, das massas trabalhadoras oprimidas e do Bem que eu - e cuja inteligência não pode ser posta em causa porque recebeu um prémio - afirmar que Tavares não tem legitimidade para abandonar a bancada do Bloco e juntar-se à dos Verdes.

Este género de argumentos é resumível, num mundo de lunáticos, assim: um independente é convidado para integrar as listas de um partido; o líder do partido faz afirmações que, a serem levadas a sério, dariam cabo da reputação do independente; pelo que o independente tem de vir embora, visto que foi eleito para representar aquele partido, aquela ideologia.

Assim dá-se cabo de dois ou três pormenores curiosos: antes de mais, qualquer indivíduo que vá para qualquer Parlamento serve uma nação; depois dá-se o caso de a um líder que não se faz respeitar não se dever respeito.

Vejamos as consequências do pensamento de José Sedas Neves: a partir de agora todo o independente teria de obedecer às regras do partido que o convidou. Note-se que não foi o independente (palavra curiosa) que foi pedir emprego à porta do tacheiro; foi o partido que - porque aquela pessoa rende votos - o chamou. Chamou aquele (como diria José Neves) homem concreto, que pensa de certa maneira, a candidatar-se ao Parlamento Europeu e aí desempenhar determinadas tarefas que - supostamente - servem os europeus e não apenas os achaques de humor do líder do partido. Se assim fosse, não valia a pena haver qualquer tipo de parlamento. Punham-se uns robôzinhos, ou legislava-se de acordo com as percentagens que cada partido teve na última eleição. Os partidos mandavam um fax com ideias e já estava.

Mas isto de - como diria o José Neves, pessoa premiada - haver homens concretos, que querem fazer coisas em vez de brincar ao Watergate no Facebook, é complicado. Deixa as melhores cabeças da nação a pensar na honra, ai a honra, nessa coisa complexa que são os deveres de um deputado (que se resume a fazer o bem, algo que qualquer criança de cinco anos de idade é capaz de entrever, mas enfim), etc.

No fundo a coisa pode ser posta assim: eis um tipo que não se deixa intimidar e que fez um voto de lá nas coisas que lhe interessam (refugiados e o catano) fazer a diferença; sentados nas suas secretárias a mirar os seus prémios, os pequenos génios da nação inventam tretas para desculpar o Chiquinho; e o povo reclama do tacho em relação a um tipo que abdica de parte desse tacho.

Depois admirem-se do país ser medíocre.

publicado por João Bonifácio às 03:19
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1 comentário:
De Mariana M a 10 de Agosto de 2011 às 21:31
Eu não tenho o Facebook.

Que é como quem diz tenho os nervos sensíveis e a língua afiada.

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