Domingo, 30 de Março de 2008

Seu palerma

Há um momento na vida de todos em que deixamos de ser invisíveis aos olhos dos outros e começamos a ser alvo de todo o tipo de comentários.

Esse momento chama-se "parto".

 

Por esses dias somos uma janela de oportunidade para os adultos aparvalharem, somos um cluster de perguntas: "Ele não é lindo?", "Não achas que tem os olhos do pai?", ou, no meu caso, "Não te parece que quando crescer vai ser um bocado parvo?".

 

Depois é sempre a perder: as perguntas tornam-se adjectivos e, a dada altura, destes restam apenas os ruins. 

 

Do agrupamento de adjectivos recorrentemente empregues pelos amigos dos amigos dos amigos dos meus dois amigos para me descrever, constam preciosidades inusitadas como "arrogante", "preconceituoso", "snob", "viperino" e "lindíssimo". Não é verdade: sou apenas razoavelmente bonito.

 

Por vezes fico, não digo aterrado, não digo perplexo, não digo espantado, mas admito que assarapantado com algumas coisas que leio - e vou explicar porquê. Antes de Janeiro de 2017 prometo explicar porquê.

 

Chamaram-me a atenção para um comentário neste post em que se diz que estoutro queriduxo post, suavemente mal interpretado por uma (imagino) frágil Dulcineia, está a "transbordar de preconceitos e arrogância". Também se diz que eu finjo não ser um palerma qualquer, o que não é verdade: eu finjo ser todo o tipo de palerma imaginável. É possível que a minha imaginação seja escassa - mas a minha palermice não.

 

E é verdade, um tipo transborda: às vezes com um pré-conceito (nem sempre bem aceite), por vezes com alguma arrogância, mas também com carinho, doçura e um cigarro no fim.

 

O que no mencionado comentário me intrigou foi o final, em que a menina diz que textos daqueles "fazem-me lembrar os artigos do João Pereira Coutinho no Expresso (ainda para mais com a boca sexista no final...)".

Ora isto não é verdade porque:

 

1: Não há qualquer semelhança entre a minha boca e a do João Pereira Coutinho.

 

2: Digo isto sem saber como é a boca do João Pereira Coutinho, já que naquela fotografia no Expresso ele tem a dita tapada por um instrospectivo dedo indicador genuflectido, a "transbordar de preconceito e arrogância".

 

É verdade que o post não era brilhante, talvez apenas mau (ou medianamente péssimo), mas falta aqui um certo orgulho insultador: quando se insulta há que insultar com pertinácia, com arrojo, com - inclusive - algum quebranto existencial.

 

O insulto é uma forma estética de catarse, faz bem, alivia. Uma boa parte do rock'n'roll insulta. NIck Cave insulta mulheres, Cohen insulta-se a si mesmo, Dylan insulta as ex-mulheres e Lou Reed insulta toda a gente. Sou solidário com quem insulta. Um bom insulto, em mim, provoca quase uma fusão com o insultador: em sendo bem esgalhado, eu deixo-me levar pelo insulto e dou por mim numa espécie de furor.

 

Por exemplo: nos meus sonhos mais libidinosos sou insultado com contumácia pela Giselle Bünchen que, numa ânsia libertadora, com uma tocha numa mão e um livro na outra, me diz: "Transbordas de arrogância, seu palerma".

E eu, juro, não levo a mal. Até porque aquele trema no "u" dá a tudo o que saia daquela boca uma irresistível elegância.

 

publicado por João Bonifácio às 00:22
link do post | comentar
3 comentários:
De Ana Matos Pires a 30 de Março de 2008 às 03:00
Psst, João, atão e o “visque”?

E já agora que aqui estou cá vai um a-modos-que-insulto: grande banalidadeiro*! Olha que grande descoberta… ainda m’hádem explicar qual é a coisinha que “em sendo bem esgalhado” não faz “furor”. E mais essa da Giselle Bünchen e da “con tu(..) macia”** , ts, ts.

* diz-se do que diz banalidades.
** esta foi inspirada aqui
http://pastoralportuguesa.blogspot.com/2008/03/internet-anagram-server-9222-eu-0.html

Agora “à séria”, parabéns João, belas escrituras. Adelante.
De Saboteur a 31 de Março de 2008 às 12:44
Coitadinho do crocodilo... Não souberam intrepertar bem o seu post e disseram logo que ele era preconceituoso e arrogante... Que insulto!

Preconceituo, o João, só por escrever coisas como "Se fizesse Yoga teria de namorar raparigas cujo sentido ontológico da vida reside em usar ganchos nos cabelos e discutir sabrinas."??!! Sexista??!!

O que vale é que isultos, destes, vindos de "dulcineias" sem arrojo e pertinácia, como eu, não atingem pessoas nada arrogantes, como o João... Que óbviamente compreenderia a critica - por ser tão humilde - se ela não fosse tão insultuosa a ponto de a "dulcineia" dizer mesmo que "aquela referência a Lucien Freud – dá aquele toque, aquele ar de quem não é um palerma qualquer".

Redimo-me! O João é tudo menos preconceituoso. E a referência a Giselle Bünchen, demonstra bem o quão culto e inteligente o joão é. Esta pobre dulcineia, se pensasse em algo mais do que sabrinas, saberia ter-te dado o devido valor há mais tempo.






De João Bonifácio a 31 de Março de 2008 às 15:43
Vamos lá ver, Saboteur: eu na realidade não só não me senti insultado, como na realidade até cheguei graça ao comentário (bem como a um post seguinte). Só usei a frase da frágil (e não pobre) Dulcineia porque aquele verbo (transbordar) me divertiu, bem como a comparação ao JPC. Tinha aquela (má) piada inicial guardada há 30 e tal anos e achei que este era o momento para a usar. A referência à Giselle tem a ver com o meu fetiche por us tremados ou tremidos ou lá o que é. De qualquer maneira o meu extraordinariamente imbecil post não me parece muito sexista: é que na realidade não conheço muitos homens que usem ganchos no cabelo ou andem de sabrinas. Mas também eu sou míope.

Comentar post

Autores

Pesquisar

Últimos posts

Contra nós temos os dias

Do desprezo pela história...

É urgente grandolar o cor...

Metafísica do Metro

A Revolução da Esperança

Autores do Condomínio

Hipocondria dos afectos

A família ama Duvall

Notícias do apocalipse

Meia idade comparado com ...

Arquivo

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

tags

todas as tags

Subscrever