Terça-feira, 21 de Junho de 2011

uma croniqueta de golf

Muitas vezes brinquei com os meus camaradas de volta quando um deles suspirava ou emitia um som ligeiramente mais forte e desabafava: “que chatice, a semana passada joguei tão bem”.  Tinha o meu reportório sempre pronto. Ia desde o clássico “ que pena eu não ter jogado contigo a semana passada para  ter presenciado a excelência do teu jogo” até ao “se calhar, hoje, as condições estão demasiado boas para ti”, passando pelo amáveis conselhos “deve ser por estares muito perto da bola, sobretudo depois de lhe bateres” ou “ experimenta pensares no objecto que tens na mão como um taco de golf e não como uma sachola”.

A minha simpatia não tem limites, eu sei. É evidente, quando me calhavam jogadores com que fazia cerimónia optava pelo “pois, isto do golf tem dias”, mas a coisa soava tão a falso que não raras vezes o cavalheiro ou senhora evitava dirigir-me a palavra até ao fim da volta, apesar dos meus esforços para remediar a situação. Curiosamente, não me lembro de ter ouvido um jogador dizer que hoje, sim, estava a jogar bem,  e que no outro dia não tinha dado uma para a caixa.  

Nunca me aborreceu rigorosamente nada jogar com quem faz 17 pancadas por buraco. Desde que saibam minimamente as regras, que não joguem de putter do tee e que se preocupem em fazer bom ambiente durante as horas que passam no campo, por mim encantado. Aliás, prefiro-os à meia dúzia de parvalhões arrogantes com que joguei, sempre prontos a criticar o jogo dos parceiros e sem sequer olharem para os shots dos outros só porque sabem jogar umas coisitas. Quero distância dessa gente. Confesso, porém, que os rapazes que só calha jogarem mal quando eu estou presente fazem-me subir um piquinho de mostarda ao nariz. Nada de especial, contudo.

Ora, aqui o rapaz esteve uns tempos sem jogar. As minhas delicadas costas, fartas do excesso de arrobas que as fazia transportar todos os dias, queixaram-se, e lá tive de deixar que as perfurassem. Recomecei há meia dúzia de semanas. No último domingo joguei um torneio. O jogo estava a decorrer com normalidade, ou seja, eram mais as bolas que eu atirava para as couves do que as que punha no fairway. Nada de muito diferente da época antes da operação. Chegado ao buraco nove, ouvi uma voz dizer: “eh pá, aqui há uns meses isto não era assim.” Era a voz da triste figura que assina esta croniqueta.

A minha mão é que sabe, quem cospe para o ar arrisca-se a levar com o não muito digno líquido na respectiva carantonha.

publicado por Pedro Marques Lopes às 21:12
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