Sexta-feira, 17 de Junho de 2011

A segunda parte

 

 

Na minha última artigalhada sinusítica sublinhei a necessidade de cada um, aqui no bairro, assumir o seu talento criativo, independente dos casulos político-estatais. Reafirmo-a neste dia em que tanto se fala nervosamente de nomes novos a comandar os destinos da Nação - como se a Nação não devesse por si promover os seus próprios mecanismos para se comandar. Sinto que falta uma segunda parte à croniqueta. Que, procurando completar a primeira, se refira um a gesto de, nessa liberdade de arriscar, olhar "os outros" (cidadãos, sim, mas também pessoas) e convocá-los, sobretudo quando estão em atitude ou desistente ou ruidosa, tão típica destas lusitanas esquinas.

 

Claro que é difícil mudar e melhorar - e bem notou isso Pacheco Pereira numa crónica recente do "Público" em que falava dos agentes políticos e mediáticos mas podia estar a falar da tragédia dos homens: "Com o tempo, vai-se percebendo que há um fundo mais permanente por detrás da espuma dos dias e que esse fundo tem muito lodo, mas também muita biologia, e muda muito pouco. Só quem nele toca com uma vara funda, alterando a ecologia inscrita nas profundezas, é que realmente muda. Costuma ser 'tocado' apenas por gente excepcional, que não abunda e costuma precisar de muito tempo para mudar, ou então de uma catástrofe curta e traumática".  

 

Percebo o pessimismo mas quero acreditar  - até porque tenho filhos e não vou já estacionar a viatura e a vontade -  que essa gente não é necessariamente tão excepcional. Quando à última frase, pergunto se não estaremos nós a viver justamente uma "catástrofe curta e traumática"? Ou por outra: não será este o tempo? As vias são as de cada um. Há quem chegue lá pela cidadania pura, pela consciência cívico-política que foi desenvolvendo com os anos ou que descobriu nestas horas de indignações mais ou menos vagas mas significativas (porque reveladoras de um legítimo sentimento de inquietude e insatisfação). Há quem prefira - num gesto contracorrente - uma via espiritual, mais compassiva. A atitude está ligada, mais uma vez, a duas visões e a vocabulários distintos: há quem seja pela solidariedade, há quem lá chegue pela compaixão. Miguel Guilherme tocou no assunto da via espiritual numa boa entrevista recente à revista do "Expresso" - e com uma coragem de quem tem consigo e com o mundo uma relação que, segundo se percebe, não foi oferecida - foi sendo aprofundada (aconselho-a por ultrapassar aqui e ali o joguete de superfície em que caem a maior parte das ditas 'entrevistas de vida'). 

 

Aqui o escriba de serviço hoje é, permitam-lhe, pelas duas. Sou pelos necessários gestos de civilidade. Mas não só não recuso como reinvidico a necessidade de, passe o Paulo Coelhismo da expressão, um trabalho de casa espiritual. É importante, acho,  revolver as entranhas com o máximo de elevação para não se deixar cair na resmunguice quase permanente para a qual se está tão competentemente programado. Calma, não me atirem já pedras e crucifixos escolares: não se defende aqui uma demanda religiosa para todos, como também disse e bem o actor  - isso da escolha de uma (única) religião é de outra esfera, mais dogmática, cultural e até muitas vezes clubística, se quisermos. Mas a vilipendiada espiritualidade é um gesto interior que julgo fundamental para não cairmos numa tendência do género humano para se encerrar em si, para fechar as persianas, para dizer que não está para ninguém. 

publicado por Nuno Costa Santos às 22:56
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