Quarta-feira, 15 de Junho de 2011

Um jantar com Michael Neuberger

Um dos problemas de explicar o "pleasure of finding things out" é que quase ninguém descobriu ou descobrirá alguma coisa de jeito. O explicando poderá já ter experimentado uma epifania na Wikipedia quando leu a entrada sobre o Método de Hondt, em tempos abriu um relógio de corda e fez até uma experiência controlada quando pediu a um amigo que também telefonasse à sua ex-namorada por volta das 5 da tarde, mas não adianta procurar na sua biografia um episódio que contenha a essência do prazer de descobrir e pedir-lhe que multiplique essa sensação por mil, não apenas por ser perigoso fazer contas com a rejeição de uma ex-namorada, mas sobretudo porque há extrapolações impossíveis. De modo que explicar isto é um pouco como aqueles exercícios de representação teatral em que se pede o impossível - William Hurt contorcendo-se a explicar Bach a uma surda (2' 11''). Conviver com alguém que descobriu alguma coisa deve então ser um privilégio, mesmo que olhemos para essa pessoa como se olha para o Grand Canyon, isto é, iludidos de que por estarmos a par da erosão e da escala de tempo conseguimos compreender algo que nos ultrapassa. Algo que não se pode extrapolar. 

 

Passei metade do dia a pensar na forma como apresentar Michael Neuberger, o conferencista meu convidado, sem acertar no tom. O tom certo é um equilíbrio de contenção institucional e calor humano, um “Oh” de comoção e um “Ah Ah” de diversão, com um remate que deixa a audiência ao rubro. Não saiu assim, refugiei-me na batida imagem do homem que resolve o puzzle e percebi logo que na manhã seguinte, ao acordar, que é quando a consciência vem pedir satisfações pelas asneiras da véspera, iria ouvir das boas. Mas a conferência teve lugar, Michael cumpriu e depois fomos jantar a um restaurante de peixe.

 

Quase toda a gente percebe de garoupa o suficiente para pedir uma e imaginar o peixe a partir da posta. Quase ninguém percebe de hipermutação somática e é capaz de imaginar o significado do emparelhamento da sequência de letras “AGCT”  com “TCGA”, em que o “C” está sublinhado em ambas. Nesse sentido, éramos seres estranhos. Depois do primeiro Muralhas, eu esforçava-me por traduzir “garoupa” e descrever o peixe, Michael mal reagia ao termo “grouper” e, com a naturalidade de quem descobre que fala o mesmo dialecto estranho depois de esforços inúteis na língua supostamente franca, logo nos concentrámos no “AGCT” com “TCGA” que ele desenhou na toalha de papel. Fui então assaltado por um desejo infantil que não mais me abandonou, antes saiu reforçado quando a conversa divergiu depois para os grandes temas: a política de ciência, o publish or perish, os limites da democracia e se devíamos passar para um Planalto ou continuar no Muralhas. É que o Michael, que em 2001 resolveu um puzzle importante e cujo trabalho eu lia há muitos anos, parecia ser, além de um excelente cientista, um homem decente, não particularmente excêntrico, mas nada aborrecido, com prazer em discutir e sem a atitude predatória dos big sharks. Foi quanto bastou para que nascesse uma surpreendente admiração amistosa,  porque com os anos vamos admirando de novo cada vez menos e com um grau de pureza cada vez menor – é a admiração a puxar à nostalgia, a admiração com uma ponta de inveja, a admiração com um redentor  “mas é uma besta”.

 

Já com a conta paga e fora do restaurante, invento com péssimo teatro uma desculpa para voltar lá dentro, aproximo-me da mesa, rasgo a toalha de papel, dobro e meto no bolso as letrinhas do Neuberger. O “AGCT” e “TCGT” estão pregados a pionés na cortiça que tenho no escritório e a porção de papel não está sequer assinada, mas tem manchas de gordura a fazer de selo de garantia. “Grouper? Grouper? Are you sure?”

 

 

publicado por Vasco M. Barreto às 09:00
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1 comentário:
De Sílvia a 24 de Junho de 2011 às 23:31
Acho que guardaria também o momento num conjunto de letras soltas num papel. A memória gosta de estar acompanhada.

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