Terça-feira, 14 de Junho de 2011

É a vidinha

Hoje apetecia-me mesmo não escrever. Como sou muito bom a arranjar desculpas para tudo e mais alguma coisa não me seria muito difícil arranjar uma boa historieta, desde que não a tivesse de escrever bem entendido. Até é possível que não fosse apenas uma desculpa, é provável que ande mesmo chateado, e, para não variar, comigo mesmo. Mas o merceeiro, que nunca deixarei de ser, é mais forte que os meus apetites.

A actividade do merceeiro é vender – confessem-se espantados com esta revelação. Se não tivermos azeite da melhor qualidade, vendemos assim um mais fraquinho; se não houver óleo Fula, o cliente não irá pior com o Frigi; a água Vidago não será propriamente a da preferência do amável cliente, mas se não estiver disponível a das Pedras, lá terá de ser. Se não se vender não se é merceeiro. Não se vende sempre o melhor, nem sequer o que queria vender, mas não é o produto que define o comerciante, é a venda. Quando deixar de conseguir vender deixa de o ser. Ora, o primeiro passo para não transaccionar a sua singela mercadoria é, pura e simplesmente, não a pôr ao dispor do cliente. A segunda possibilidade é não a conseguir vender.

Isto da escrita é exactamente a mesma coisa. Um tipo deixa de ser cronista,  articulista ou seja lá o que for, se deixar de entregar a mercadoria. Umas vezes o produto não é grande coisa, outras será mais satisfatório, outras, ainda, será uma grandessíssima merda, mas enquanto a disponibilizar e um leitor se der ao trabalho de lhe passar os olhos por cima temos artista.

Pois claro, o escriba sofre mais. Sofre o caraças. Quem pode sofrer é o inadvertido consumidor duma crónica que após a leitura se pergunta porque diabo perdeu cinco preciosos minutos a ler uma estucha qualquer. Seja qual for o ângulo escolhido a angústia do merceeiro e do cliente é sempre maior.

O cronista pode não se lembrar da inqualificável crónica que escreveu há dois anos e de, certeza absoluta, o leitor também não. Já o merceeiro que vendeu um ovo estragado há dez anos jamais se esquecerá dos problemas que teve, e nem vale a pena referir os sentimentos do cavalheiro ou donzela para com o nosso merceeiro e a memória guardada.

Isto que fazemos no Sinusite ou noutro sítio qualquer é muito giro e tal, mas não passa da coisa mais simples do mundo: vender. A nossa angústia é igual ao de qualquer outro cidadão: tem de ser, todos os dias ou todas as segundas ou todos os meses, mas tem de ser. Nada a fazer. Claro que se pode optar por ser merceeiro. Quero apenas lembrar que depois também tem de se ser merceeiro todos os dias. É escolher.

publicado por Pedro Marques Lopes às 13:22
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2 comentários:
De Sílvia a 14 de Junho de 2011 às 18:53
Vistas assim as coisas parece compreensível a sua eventual angústia. Compromissos. Isso de escrever obrigatoriamente soa a algo muito aborrecido. (e eu que pensava num jardim sem jardineiro oficial, onde apenas o sol, o vento e as borboletas eram obreiros...)
De Isa a 15 de Junho de 2011 às 04:44
Sorte nossa que os sinusites optaram pela escrita e não pela fruta ou os vegetais.

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