Segunda-feira, 13 de Junho de 2011

o sonho espartano

Nada me provoca mais inveja do que as agendas dos homens e mulheres ditos de sucesso. Geralmente, aparecem numa caixa à parte,  acompanhando a grande entrevista no jornal ou o perfil ou o “um dia com”. Há uma bondade antropológica na sua exposição. Funcionam como uma receita: este é o segredo dele; se quiseres ser assim, rico, famoso e bem sucedido, é desta forma que deves viver.

Inevitavelmente, descobrimos que são uns paranóicos da disciplina. Levantam-se ainda o próprio Sol esbugalha os olhos, meia hora depois já leram todos os jornais do mundo ocidental, às 8h já estão no escritório depois de uma refrescante incursão pelo ginásio, das tantas às tantas documentam-se, das x às y reúnem e das w às z deliberam. Ao fim do dia, ainda têm tempo para um golfe, uma exposição, um jantar de família, brincar com os miúdos, ver um filme, ler a 26ª biografia do Churchill e, lá pela meia-noite, dormir o sono dos justos.

O impacto que isto me provoca deixa-me em geral num estado letárgico que começa logo a concorrer para o fracasso. Sigo atordoado até final do dia magicando como alcançam estes imortais tão espartana organização. Num dia, fazem caber trabalho, desporto, cultura e família; eu tenho dificuldade em conjugá-los num intervalo de tempo de, digamos, um ano (partindo do pressuposto de que correr atrás dos gatos pela casa conta como desporto). Porém, deito-me com esta convicção: amanhã, tudo será diferente. Amanhã, seguirei a receita do Belmiro Salgado Soares dos Ulrich. Amanhã, também eu ditarei a minha agenda de sucesso a uma jornalista fascinada.

Embalado nesse sonho, desligo o despertador, acordo meia hora mais tarde, atropelo os gatos no caminho entre a casa de banho e a cozinha, tenho dificuldade em focar a vista nas letrinhas do editorial do jornal por causa da turbulência do eléctrico. Ao final da manhã, alcanço finalmente o estado de concentração que me permite trabalhar e saio para o almoço. À tarde, um inesperado telefonema materno consome-me hora e meia, as interrupções para as piadas e angústias dos colegas de escritório outra hora e meia, a reunião inesperada o resto do dia. Regresso a casa, ponho um filme a correr no dvd, preparo o jantar, afugento os gatos, na falta de filhos ligo a um primo. O filme acaba, lava-se a loiça, olha-se a capa do livro, lê-se a badana. Sento-me ao computador, escrevo furiosamente tudo quanto falhei de dia. Deito-me às três, exausto, os gatos perdoam-se e vêm aninhar-se, faço-lhes festas, busco-lhes nos olhos compreensão para o meu fracasso. Ele está lá. Tento acabar de ler o jornal. Adormeço a meio, antes de saber se por lá estaria uma entrevista a um romântico falhado e sua agenda rigorosa: às 8h falhar, às 10h correr, às 20h abraçar, 22h fazer as pazes consigo mesmo, 23h esquecer tudo isto, 25h sonhar com dias longos, 26h aceitar que aquelas agendas dos homens de sucesso são, muito provavelmente, um embuste.

publicado por Alexandre Borges às 03:12
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6 comentários:
De Isa a 13 de Junho de 2011 às 03:58
Querido Alexandre,
mas que pedaço de prosa, tão bem disposto, que me arrancou gargalhadas baixinhas, aqui é quase meia noite, e que surpresa tão boa no meio de uma das traduções mais chatas da minha vida.
Obrigada, Deus assim te conserve.
Gd bjo,
Isa
(Imaginei-te a correr atrás dos gatos e a atropelá-los, e isso fez-me gargalhar mais que tudo. Valeus!)
De Alexandre Borges a 14 de Junho de 2011 às 21:00
Obrigado, Isa. Se fez isso por ti, a crónica já valeu a pena. Coragem na tradução. Bjs
De manuela a 13 de Junho de 2011 às 12:27
como me revejo neste post...
De Alexandre Borges a 14 de Junho de 2011 às 20:59
Não se deixe abater, Manuela. Um dia, o mundo será nosso, dos indisciplinados. Um abraço e obrigado pelo comentário.
De Anabela M a 14 de Junho de 2011 às 23:43
Meu caro Alexandre
o mundo já é nosso, o resto é mise en scene.
Que saudades tinha de si, ainda bem que voltou, faz-me bem.
Anabela
De Alexandre Borges a 15 de Junho de 2011 às 21:19
Obrigado, Anabela. A mim, fazem bem visitas tão generosas.

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