Sexta-feira, 10 de Junho de 2011

Perceber isto

Um tipo sonha, um tipo tem delírios, um tipo cai em si. O país está igualzinho depois da jornada das eleições - a olhar demasiado para cima, à espera que os "poderosos" resolvam os seus problemas. Sente-se as pessoas agitadas, suspensas do que é que o novo primeiro-ministro vai fazer e dizer. Parece que são poucos os que se concentram verdadeiramente nas suas vidinhas. Aguarda-se, a qualquer momento, que os agentes poderosos da Nação (esses Super Homens Políticos) tenham um gesto, levantem a mão para uma ordem, mandem a rapaziada trabalhar, arranjem um emprego ao pessoal. Mesmo personagens de áreas que deviam estar alheias às mudanças na governação alimentam-se do ruído que é a conversinha sobre a troca de lugares nos territórios de comando e nas assessorias várias. É triste, no mínimo. E sintomático.

 

Mesmo o país que não depende directamente (eu sei, todos dependemos de uma ou outra maneira) de decisões políticas coloca-se nessa posição - de esperar, de comentar furiosa e abundamentemente, que é uma outra forma de esperar. Às vezes basta uma observação de esquina para perceber esse dado. Anda muita gente inquieta, nervosa - a palrar sobre o assunto eleições nas esquinas. Não, não é por causa do impacto de novas medidas nas suas existências  e na existência do país (essas já estão, sabemo-lo, traçadas por outros). É um misto de dependência do paizinho e vontade de fazer tudo para não olhar para o trabalho que se tem à frente.

 

 

Perdoem-me a insânia (deve ser dos Santos): ainda idealizo um país que, mais do que andar a passar a vida a olhar para cima, se procura concentrar nas grandes e pequenas realizações de todos os dias  (comece-se, sugiro, pela rua e pelo bairro). É uma questão de fundo, de mudança de filosofia de vida, de olhar sobre o mundo, que, sei disso, não será fácil de tratar e de resolver. Mas é um desejo pessoal, mesmo sob uma forma demente. Os portugueses ainda vivem misteriosamente com a crença de que os políticos e a política (com maiúsculas, claro) vão resolver os seus problemas todos. Acho até que há gente que julga que Passos e Portas - e todos os deputados da Nação e o presidente da República e o presidente da junta e o presidente do condomínio - vão resolver os seus problemas amorosos e aquela implicância com o chefe que vem de há umas semanas para cá. Não vão, vão. Vão tratar de outros assuntos, com uma margem de manobra mínima. E, já agora, se quisermos ser um bocadinho pragmáticos, também vão tratar das suas vidinhas. Eu tenho um sonho, como o Martim. Um dia ainda vamos conseguir perceber isto.

publicado por Nuno Costa Santos às 10:01
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