Segunda-feira, 6 de Junho de 2011

quando formos pequeninos

Certo. É fácil perceber que muitas meninas sonharam ser bailarinas. E meninos futebolistas. E outros actores, músicos, apresentadores, até jornalistas. Pintores, cientistas, escritores, grandes cozinheiros. Mas, de toda a galeria de estrelas da praça pública, há uma carreira que não cabe, nem à martelada, na galeria de sonhos infantis: a política.

Recordemos a sacramental pergunta “E tu? O que queres ser quando fores grande?”. Consegue imaginar-se uma voz pequenina, doce, do outro lado, dizendo “político”? Não se consegue. E, caso acontecesse, o pai e o psicólogo eram imediatamente chamados à escola. “Olhe que o menino anda com comportamentos muito esquisitos… Sobe às cadeiras e põe-se a discursar para os colegas. Abre o estojo e distribui esferográficas. Telefona para o jornal da escola e diz que a notícia sobre a chuva no pavilhão não pode sair…”

Não há memória. Os miúdos quererão ser astronautas, exploradores subaquáticos, até taxistas (conheço um caso muito próximo); jamais políticos. E isso é curioso porque não haveria projecto mais adequado à inocência pueril. Nenhuma outra profissão serviria melhor os sonhos de mudar o mundo e, não menos importante, ter todos os brinquedos do mercado.

Num processo de crescimento normal, suponho, a atracção pela política só aparece lá para os 17, 18 anos, quando as leituras obrigatórias do fim de liceu nos levam a Platão. Contudo, descobrimos, logo de seguida, que as juventudes partidárias já estão cheias de coleguinhas que para lá entraram aos 15 ou 16. Coleguinhas que nunca leram filosofia política nem pareceram interessar-se por nada que estivesse para além do fim da rua. Coleguinhas que nos levam essa eternidade de um ou dois anos de avanço na política real e que isso os habilita a uma formatação de raciocínio e discurso que nos faz sentir demasiado do lado de fora para querer estar do lado de dentro.

E o esquisso tardio de sonho fica rapidamente por ali, desaparecendo mais depressa do que surgira.

O resto, diria, é história. O passar dos anos leva-nos à desidentificação colectiva com uma classe onde a ingenuidade é mais duramente punida do que a corrupção, uma classe cínica a que respondemos com cinismo, uma categoria de gente que juramos ter tido apenas a perspicácia e o despudor de escolher o caminho mais rápido para o poder.

Em que momento nos desencontrámos de quem deveríamos estar mais próximos? Em que circunstância os autorizámos a comportar-se como se não tivessem crescido nas mesmas ruas do que nós? Em que dia nos demitimos de tudo isto e passámos a aceitar, como uma fatalidade, que haveria um “eles” e um “nós”?

Perguntas sem resposta. Sobra um desejo megalómano de pátio de escola, anterior a todas as leituras e desapontamentos: que venha o dia de não nos demitirmos. O dia em que nós, os escritores, astronautas e bailarinas concretizados ou adiados, tomamos a nossa vida em mãos. Sem ingenuidades nem cinismos. Só a brutal certeza de que não perderemos este jogo por falta de comparência.

publicado por Alexandre Borges às 13:56
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1 comentário:
De Isa a 11 de Junho de 2011 às 03:13
Muito bom. tudo menos falta de comparência. E no teu caso, nada temas. e jamais desistas de escrever.
Bjo

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