Sexta-feira, 3 de Junho de 2011

Álbum de Família

 

 

Arrumei-o na nova estante por estes dias. E voltei a folheá-lo, como quem regressa, por um instante, à terra. É um álbum de fotografias intitulado "Açores Profundos". Pergunta-se com letimidade: o que são os “Açores profundos”? Ou por outra: de que falamos quando falamos de “Açores Profundos”? Dos Açores das lagoas e das grotas quase inacessíveis? Do coração das ilhas, por vezes habitado por gente que vive de costas para o mar? Dos pensamentos ocultos dos que seguem todos os dias para os pastos e para a pesca? Para o fotógrafo Paulo Monteiro, os “Açores Profundos” são os Açores da religião. Melhor: os Açores dos rituais religiosos que se praticam um pouco por todo o arquipélago. É uma opção acertada - porque possível. A alma açoriana passa necessariamente por aqui.

 

Folhear este álbum é, pois, como que espreitar para dentro de uma igreja – um edifício espiritual onde se reúnem as manifestações religiosas açorianas. Há cultos vários no espaço, mas há um que se destaca com evidência e naturalidade: o culto ao Espírito Santo, o mais popular e universal nas ilhas. O livro começa justamente por aí  - e por um improvável cruzamento no meio do Atlântico entre o cristianismo e o islamismo. Sim, à porta desta igreja está uma coroa – uma coroa real, do Império da Praça, da freguesia dos Cedros, na ilha do Faial, que, segundo uma lenda, terá pertencido a um rei mouro.

 

As fotografias merecem ser olhadas uma a uma, com vagar e atenção ao detalhe. E há neste álbum óptimos detalhes: o céu escuro e dominador por cima dos romeiros, a determinação de uma rapariga que tapa os ouvidos para não ouvir os foguetes, o movimento da “rainha” que, dentro de uma capela, roda o vestido para a fotografia. Mas pode-se também passar as páginas como quem folheia um álbum de fotografias de família. Até porque há sempre um lado familiar nestes “retratos”. Nos olhares, nos gestos suspensos, nos vestidos “artesanais” das raparigas que vão nas coroações, nos pães – o mais caseiro dos elementos. Álamo Oliveira, um dos dois escritores que têm textos no livro, escreve que “neste álbum, cada imagem se transforma numa sucessão de metáforas”. Percebe-se a nota e o sentido interpretativo do autor mas, a meu ver, a força deste álbum está na secura das fotografias. Na sua simplicidade. Que se basta a si própria. Que capta sem artifícios de maior estas gentes devotas.

 

Dentro deste catálogo, existem fotografias que se destacam, naturalmente. O pagamento de uma promessa feito por uma anafada mulher que leva um bebé no dorso. A caminhada dos romeiros durante um aguaceiro. Os instantes seguintes à cerimónia de baptismo de um barco de pesca artesanal - a fotografia da página 109, precedida de um texto feliz de Madalena San-Bento, a outra escritora com textos neste livro. Nesta fotografia encontramos um quadro com um Cristo mas, ela própria, podia ser um quadro. Há um barco. Uma escada que permite o acesso ao mesmo. Dentro do barco estão crianças. E uma mulher – possivelmente a mulher de um dos pescadores que vai para o mar, para citar a autora, “num equilíbrio precário de valentia e fatalidade”.

 

Folhear este álbum lembra-me que talvez faça falta revelar uns outros Açores, igualmente “profundos” e contemporâneos – aqueles que fundem de forma ainda mais radical o velho e o novo arquipélago. Recriando a frase de Álamo Oliveira: talvez fosse bom e pertinente levar ainda mais longe a “cumplicidade convivencial do religioso com o profano”. Há um novo arquipélago, igualmente denso, menos conhecido, por contar e registar. Mais urbano, mais impuro - sem deixar de ser religioso. Um arquipélago que une o altar e o centro comercial. Talvez fique para outras núpcias a fixação destes contrastes.

publicado por Nuno Costa Santos às 18:23
link do post | comentar
2 comentários:
De Paulo Monteiro a 22 de Abril de 2014 às 16:56
"... talvez faça falta revelar uns outros Açores, igualmente “profundos” e contemporâneos ..." [...]" Mais urbano, mais impuro - sem deixar de ser religioso. Um arquipélago que une o altar e o centro comercial."

Talvez seja isto:
http://paulomonteiro.jimdo.com/galerias-galleries/%C3%A1frica-africa/s%C3%A3o-tom%C3%A9-e-pr%C3%ADncipe-s%C3%A3o-tom%C3%A9-and-pr%C3%ADncipe/

Ou isto:
http://paulomonteiro.jimdo.com/galerias-galleries/a%C3%A7ores-profundos-profound-azores/a-batalha-da-farinha-the-flour-battle/

Ou ainda isto:
http://paulomonteiro.jimdo.com/galerias-galleries/a%C3%A7ores-profundos-profound-azores/dan%C3%A7as-dances/

Ou talvez não seja.
Peço desculpa se não for.
De Paulo Monteiro a 22 de Abril de 2014 às 17:00
Volto aqui para, mais uma vez, pedir desculpa.
O primeiro link que menciono refere-se a São Tomé e Príncipe.

O link que deve ser considerado no comentário é:
http://paulomonteiro.jimdo.com/galerias-galleries/a%C3%A7ores-profundos-profound-azores/a-batalha-da-%C3%A1gua-the-water-battle/

Peço mais uma vez desculpa pelo lamentável engano.

Comentar post

Autores

Pesquisar

Últimos posts

Contra nós temos os dias

Do desprezo pela história...

É urgente grandolar o cor...

Metafísica do Metro

A Revolução da Esperança

Autores do Condomínio

Hipocondria dos afectos

A família ama Duvall

Notícias do apocalipse

Meia idade comparado com ...

Arquivo

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

tags

todas as tags

Subscrever