Segunda-feira, 30 de Maio de 2011

a vitória de ser eu

Chegámos a este ponto de não acreditar em nada e que fizemos? Descobrimos, entediados, que não valia a pena viver por coisa nenhuma. Nada era digno do nosso sacrifício. Nem a religião nem a política, nem a arte nem o trabalho. O patrão nunca paga o que merecemos, o mundo não compreende o nosso talento, os líderes apenas querem governar-se, Deus é conversa de velha tia da aldeia que não percebe nada. Com toda a nossa esperteza, lucidez e cultura de viagens low-cost e livros dos tops, chegámos a este zénite intelectual onde pairamos, soberbamente, sobre o rebanho de mortais que, todos os dias, martirizado e iludido, cruza as ruas. Que sorte a nossa. Que bênção. Que mérito extraordinário este de termos nascido com um olho e um cérebro em terra de cegos e simplórios.

Mas, agora, que fazer a todo este genial niilismo? Dá boas frases para dizer em jantares, mas, ao segundo, esgota-se o assunto. Poderíamos fazer uma seita, mas também não acreditamos nelas. Procuramos uma alma-gémea que pense exactamente como nós, mas, quando encontramos uma, achamo-la terrivelmente depressiva. Arrisca-se a acabar em suicídio colectivo e, para isso, mais valia a seita. Sempre se fazia a coisa em grande.

É nesse momento que a grande epifania se desvela diante de nós: não há Deus nem Estado nem amor nem carreira, mas resto eu. Eu existo. Eu sou real.

Então, começamos a viver, finalmente, para o grande projecto: nós mesmos. Espalhamos fotografias nossas pela web, partilhamos com o mundo os nossos gostos requintados, alardeamos opiniões sobre tudo, relatamos cada passo dos nossos dias, filmamos todos os eventos onde que nos dignamos comparecer, fotografamo-nos obsessivamente junto a monumentos, celebridades, vestidos de pára-quedista no dia em que fomos desfrutar da experiência a-vida-é-bela que nos ofereceram pelos anos, et cetera, et cetera, cetera. Para não falar já desses poucos de nós, insignes artistas plásticos, que esborratam assinaturas pela cidade, cachorro marcando território, esquecendo candidamente que uma assinatura se deve inscrever debaixo de uma obra e que a obra não está lá porque a obra, é claro, são eles mesmos, criaturas especiais e únicas capazes de respirar e defecar.

E tudo porque precisamos de provar que vivemos, que existimos, que estivemos aqui, mesmo que o mundo nunca tenha dado por nada.

A angústia que nos move é a mesma de crentes e filósofos, grandes artistas e estadistas: salvar-nos da morte, esbracejar contra a insignificância, provar, antes da putrefacção, que fomos de maior interesse que um pombo ou erva daninha de berma de estrada.

Agora, que alguém que tenha morrido pela paz mereça mais reconhecimento do que nós que passámos a vida a olharmo-nos ao espelho é que é duma injustiça sem nome.

Mundo de ignorantes. Nunca compreenderão.

publicado por Alexandre Borges às 13:46
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6 comentários:
De Tiago Ferreira Marques a 30 de Maio de 2011 às 15:44
"- e projectos para o futuro?
- olha, pá, continuarmos a ser iguais a nós próprios."
De João Bonifácio a 30 de Maio de 2011 às 20:36
mas vocês estão todos a dar nas drogas? mais um texto soberbo. irra.
De Domingos Farinho a 30 de Maio de 2011 às 20:53
O que te safa são esses dois parágrafos finais... :) saudades. Abraço
De Nuno Miguel Guedes a 31 de Maio de 2011 às 17:27
O Vasco a dar-lhe com o ennui e a arte é inutil e não nos faz melhores e o que interessa é o que há para fazer. Tu com uma versão 2.0 do Unamuno. Qualquer dia isto é literatura, pá, não pode ser.

Grande texto.
De Alexandre Borges a 31 de Maio de 2011 às 23:41
Quero agradecer aos quatro, mas tenho uma palavra especial - vá, doze palavras especiais - para o João: toca a escrever, meu grande f#%&!!+***!!! Esta taberna precisa do teu talento.
De Sílvia a 3 de Junho de 2011 às 10:29
Talvez tenha sido sempre assim. A vitória de ser eu é uma glória algo solitária que distancia o sujeito dos seus parceiros de jogo na terra. Isto quando a vitória não é antes uma grande derrota com vestes que enganam o próprio. Parece-me de qualquer modo que o conselho acima transcrito reveste a qualidade necessária para nos orientar: empreender espontaneamente um projecto de vida em que sejamos nós mesmos e nos cumpramos, não plenamente, mas de forma tendencialmente plena (o que quer que isso queira dizer).

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