Segunda-feira, 23 de Maio de 2011

Está escrito

O cidadão liga a rádio ou a televisão e ouve um comentador, jornalista ou bicho do género a desenvolver um, normalmente, brilhantíssimo raciocínio. Explica os seus argumentos, dá os muito reveladores exemplos e, muitas das vezes, remata: “Bom , eu até já escrevi sobre o assunto”.  

A frase serve para legitimar definitivamente a razão do senhor ou senhora. Como se ter passado a escrito uma teoria qualquer lhe desse uma força especial, como se os dedos fossem uma espécie de notário do pensamento.

No fundo, pretende-se dizer que as palavras ditas não têm suficiente relevância, são coisas mesquinhas, diletantismos do pensamento, algo de pouco preciso, uma forma menor de expressão. O que realmente contaria seria a palavra escrita num livro, num jornal ou num blog ou rede social. Ou seja, se eu escrever que o Alexandre Borges é um rapaz lindíssimo, não restam dúvidas a ninguém que acho o homem uma espécie de Brad Pitt da Terceira. Se eu disser exactamente o mesmo num programa de rádio, tanto o posso achar parecido com o Emplastro como com o Paulo Pires.

 

Claro que não há nada como o conforto dum teclado. Um tipo pensa, vai buscar um livro para o ajudar, telefona a um amigo e depois derrama toda a sabedoria recolhida e mastigada numa página. Não há ninguém do outro lado, ou melhor, há gente que lê e que concorda ou discorda, mas fica-se por aí.

Se estiver a discutir com alguém é mais difícil. Pode ser que o outro cidadão tenha pensado em algo que ele não tenha pensado, que tenha lido outros livros, que tenha falado com outros amigos. E, naquele instante, estamos sozinhos, desprotegidos. Não nos dão tempo para pôr o chapéu pensador, não podemos pedir uma pausa para nos sentarmos numa esplanada a reflectir. É ali e agora. Ou estamos certos das nossas opiniões ou dizemos meia dúzia de disparates. Ah, mas não interessa, é só gente a falar.  

O problema é que é a falar que a gente se entende. É a falar que nos surgem as ideias, que vemos que há outras formas de ver o mundo, que percebemos que a realidade não se esgota no cubículo onde escrevemos umas tretas que julgamos irem mudar o mundo.

Lembro-me de ler um pateta cheio dele próprio que dizia recusar-se ir a rádios e televisões porque não tinha paciência para discutir com imbecis e tinha receio de dizer algum disparate. Pois. Nada como ter a verdade toda e nem sequer ouvir, um gajo dorme muito mais descansado. Nada como não explicar as nossas ideias em frente de outras pessoas, assim não exibimos as nossas fragilidades.

Pronto, está escrito.

 

 

 

 

 

 

 

publicado por Pedro Marques Lopes às 23:37
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2 comentários:
De Alexandre Borges a 24 de Maio de 2011 às 00:31
Não se deixem confundir pela subtileza do argumento do Pedro. Eu sou um Brad Pitt.
De Nuno Miguel Guedes a 24 de Maio de 2011 às 09:36
Um Brad Pitt que fuma cigarros de senhora.

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