Quarta-feira, 1 de Junho de 2011

Um longo dia até ao Charlie Trotter's

Uma série sobre o programa animal: comer, não ser comido e dar a comer

 

O Alexandre ridiculariza o obcecado autor de uma autobiografia que apenas interessa ao biografado e o meu homónimo procura um sentido para a existência. Como ainda estou aquém da idade suficiente para projectar alguma autoridade sobre estas questões e eles já perderam a juventude necessária ao crédulo, só me resta defender o epicurismo, cuja grande vantagem sobre todas as outras filosofias de vida é a certeza de que a caminhada terá sempre valido a pena, mesmo se percebermos um dia que nos enganámos na direcção. Serve também de pretexto para rebater uma interpretação abusiva de uma famosa frase de Tolstói: a de que a infelicidade diversifica e a felicidade homogeneíza. Por ser assim com as famílias, como o russo escreveu, não se pode concluir que também se aplica aos indivíduos. Pelo contrário, não há dois epicuristas que se confundam, porque ambos falharam a busca do prazer completo, mas cada um à sua maneira. Por exemplo, é quase impossível encontrar duas pessoas que tenham visitado os mesmos grandes restaurantes, a menos que estejam casadas  - Tolstói realmente rules, porque muitos destes casais agregam-se em double dates e até grupos excursionistas, homogeneizando-se.

 

Quando a classe média com ideais de esquerda admite ir a um restaurante com estrelas Michelin, tem lugar na cabeça um exercício de equilibrismo, impensável para os mais ricos e impossível para os mais pobres, que explica um aparente paradoxo: incomoda mais o capricho de um jantar caro do que a extravagância de um jantar caríssimo. Tal sucede porque só com um jantar que custa o que daria para alimentar um cidadão de um país subdesenvolvido durante um ano inteiro pode o peso na consciência  ser contrabalançado pelo enorme peso na carteira, pois acima de certos valores, à medida que o preço sobe, o peso aumenta mais depressa sobre a carteira do que sobre a consciência e onde no gráfico - imaginem um - estas linhas se cruzam não vemos apenas um break even, é mesmo um break free. Acresce que, quanto mais excepcional for a experiência, mais reforçado fica o efeito atenuante da devoção. Pelo menos foi nestes raciocínios que passei parte da tarde do dia em que tive reserva para jantar no Charlie Trotter's

 

A classe média associa a ida a um destes restaurantes a uma qualquer celebração, mas no meu caso o denominador comum foi a companhia da  mesma pessoa. A mulher da minha vida? Não. O careca da minha vida. Chama-se Th. e é o gourmet e gourmand que me convenceu a ser seu parceiro no projecto megalómano de visitar todos os grandes restaurantes do mundo. O plano aparentemente colapsou por falta de verba e só fomos a três restaurantes, todos nos EUA de W. Bush, onde então vivíamos. Houve peripécias - no Wd50, expliquei ao maître que se um jantar de gastronomia molecular me deixa com vontade de ir comer uma vulgar fatia de pizza a seguir, em vez de retocar as fórmulas e cortar centésimas no tempo de cozedura do ovo escalfado, o melhor é reforçar as doses; no Daniel, sentou-se longe da nossa mesa uma sósia da Nastassja Kinski circa 1980 que à saída agraciou Th. com um sorriso. Mas só o Charlie Trotter's nos marcou e sempre que tento contar aquela noite oiço uma Helen Sinclar cá dentro: "No, no, don't speak. Don't speak".

 

Chicago deve ser a cidade a única das cidades que conheço em que as três breves estadias em alturas diferentes se fundiram num único dia. Esta distorção talvez seja um efeito secundário da forma de catalogação que uma memória débil encontrou e, no caso concreto, produziu um dia muito preenchido. 8:00 AM: no café do aquário da cidade, muito perto do tanque dos golfinhos, que - gosto de corrigir esta ideia errada - não são monogâmicos, Th., em jeito de preparador físico que recupera o jogador, explica-me - mas sem violentar muito a verdade - que eu iria voltar a encontrar alguém. 9:00 AM: estamos no The Art Institute of Chicago, onde daí a pouco tempo terei um daqueles instantes de lusofilia bacoca diante de um quadro de Vieira da Silva - Th. está não sei em que sala, porque gostamos de apreciar arte sem a pressão do comentário. 11:00 AM: deambulamos pela cidade e acabamos meio perdidos numa zona run down, quase uma ruína industrial, tão próxima do centro que ficamos com a sensação de em algum momento termos cruzado uma porta do tempo; 1:00 PM: estamos no Museu de História Natural e Th. tira apontamentos de memória para a exposição de Biologia que organizará - vemos o museu juntos, porque, ao contrário de um Edward Hopper,  animais embalsamados e mesmo borboletas tropicais trespassadas por alfinetes não induzem estados contemplativos. 3:00 PM: como nenhum de nós trabalha de fato e gravata, preparamos a noite auxiliados por St. Anthony Scotfield, o "wardrobe consultant" que adverte um Th. tentado por uma camisa rosa para a absoluta certeza na orientação sexual de que dá mostras quem enverga tal peça de roupa.  4:00 PM naquela que é seguramente a mais deslocada destas memórias, porque sei que não houve matinés de música em Chicago, estamos no Legends, o clube de Buddy Guy, com a irritante atitude de branco a querer ser aceite entre pretos só por em tempos termos escrito um blues sobre a nossa condição laboral. 5:00 PM: sesta breve no hotel para gozar umas camas que ninguém deve comprar, sob pena não de morrer a dormir, antes de dormir, dormir, dormir e mais nada fazer até morrer. 6:00 PM: numa esplanada perto da cloud gate, aquele monumento que me lembra apenas uma gigantesca gota de mercúrio, mas a outros lembra o aparelho reprodutor feminino, é com a tensão característica do relato de uma experiência pessoal que Th. desenvolve uma teoria pré-Hitchens sobre a generalizada falta de sentido de humor das mulheres, a que respondo com a tese de que as mulheres estão, na verdade, igualmente bem representadas nos grupos dos extremos, o das pessoas com pouca e o das pessoas com muita graça. 8:00 PM:  Subimos ao topo da Sears Tower, contemplamos o vazio escuro que é o lago Michigan e depois descemos. 9:00 PM: gargalhadas num clube de comédia de Chicago, o Second City, e um I told you so com o olhar após o gag improvisado de uma rapariga, por quem nos nos enamoramos até às 10 da noite. 10:00 PM: Entramos no Charlie Trotter's.

 

Termina no Sábado. Lá está ela: "No, don't speak. Don't speak".


 

 

publicado por Vasco M. Barreto às 09:59
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3 comentários:
De Sílvia a 3 de Junho de 2011 às 10:47
(mas o ratinho da pradaria é. nada a ver, pois, mas é um exemplo de sinal contrário, axiologicamente neutro pretende-se)
De Th a 7 de Junho de 2011 às 18:06
O plano nao colapso, esta em diapausa.
De Th. a 10 de Junho de 2011 às 11:50
A triste verdade é que eu acabei comprando apenas duas camisas, uma camisa azul e outra cinza.

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