Sexta-feira, 20 de Maio de 2011

Dias de Ternura Desportiva

 

Quem não conhece a poesia de Fernando Assis Pacheco pode entrar pelo futebol. Vai pelo bom caminho. Manuel António Pina notou-o com outras palavras no posfácio à edição em livro destas belíssimas “Memórias de um Craque”: é pouca a diferença no toque de bola. Assis Pacheco era essencialmente o mesmo quer invocasse a musa irregular ou trouxesse à memória uma confraria de “jogadores made in retrosaria”. As crónicas que aqui se contam em voz alta trazem justamente isso: o sangue e a verve da sua escrita, no caso a tratar dos digníssimos acontecimentos ocorridos em cima de “ervados”, quintais, ruas e superfícies afins. E o homem, esse homem que tratava a vida com ternura e humor, com gentileza e autenticidade, sem necessidade de recorrer a nomes e modos pomposos. Outro jogador da bola, o rapaz Camus, recentemente relembrado e rediscutido, dizia que tinha aprendido tudo o que havia a aprender sobre o carácter no futebol. Assis Pacheco não era do género de fazer proclamações tão definitivas. Mas é justo dizer-se que se pode encontrar nestas gravações o essencial da têmpera e da alma Assispachequianas, nas suas primeiras aprendizagens do modo humano de funcionar.

 

Permitam-me a nota pessoal: reconheço inteiramente nestas histórias a figura que tenho procurado, em função do trabalho para um retrato biográfico, noutros mapas e pesquisas – aquele que, depois de andar a afirmar-se em golos e caneladas, se fez um homem familiar e de família, um romântico que aconselhava “o amor/o equilíbrio dos contrários”, um leitor de grandes apetites, um gastrónomo de gosto afinado, um jornalista para quem tanto era importante projectar uma reportagem como redigir uma breve, um tipo também, como todos os que admirava, com o seu feitio e as suas manias. Um coração de lugares vários – Coimbra, Pardilhó, Orense, etc. – que nunca deixou os lugarejos da infância, esses territórios de pequenas maldades e afirmações, bastante distantes daqueles que pisou mais tarde, naquelas circunstâncias limite da vida, como são as da guerra, que ninguém devia ser obrigado a respirar.

 

É particularmente feliz esta versão áudio de algumas das suas boas prosas. Porquê? Porque, sabemo-lo, muitos dos textos de Assis Pacheco foram desenhados para serem ditos – vêm de uma tradição galaico-portuguesa que muito deve à convivência e ao bate-papo. Uma linhagem que, diga-se, devia ser cada vez mais recuperada. Nas artes e nas esquinas. Sim, neste tempo de facebooks (e assim) nada melhor do que pôr a petizada a ouvir o narrador Nuno Moura a lembrar-nos que a chincha é para rolar no chão, não naquela coisa da internet. “A minha posteridade vai ser isto: ir morrendo”, disse ele em 1993, numa entrevista ao jornal “Público”, invocada num belo texto de Torcato Sepúlveda, escrito após a sua morte. Podemos dizer que mais uma vez praticava os exageros da auto-ironia. A posteridade de Fernando Assis Pacheco é ir revivendo nas edições e reedições das suas jogatanas literárias e na recuperação de quem foi na vida e na literatura. Também por alturas da sua morte, Miguel Esteves Cardoso escreveu que “vai ser bom lê-lo e vê-lo renascer”. Que será “uma alegria para acompanhar e tornar ainda maior a nossa mágoa, dando-lhe o sentido que ainda nos falta conhecer e sofrer para começarmos a aproximar-nos da sua verdadeira inteireza”. A coisa já se está a cumprir. É caso para descer as escadas do prédio e jogar à bola com a malta do bairro em jeito de celebração.

 

(Texto editado no audiolivro da Boca "Memórias de um Craque")

publicado por Nuno Costa Santos às 18:40
link do post | comentar

Autores

Pesquisar

Últimos posts

Contra nós temos os dias

Do desprezo pela história...

É urgente grandolar o cor...

Metafísica do Metro

A Revolução da Esperança

Autores do Condomínio

Hipocondria dos afectos

A família ama Duvall

Notícias do apocalipse

Meia idade comparado com ...

Arquivo

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

tags

todas as tags

Subscrever