Sexta-feira, 13 de Maio de 2011

A coisa mais inesperada que podíamos esperar hoje

 

Aconteceu hoje, espero que se repita: folheei o jornal da manhã e à entrada não apanhei com mais uma elegante matéria sobre o fim da Nação, com uma boca menor entre líderes partidários ou entre gente mandada por líderes partidários. Estava preparado para mais umas páginas de fúria, melancolia e ressentimento e apanhei com o melhor disto tudo. Encontrei uma peça longa, feita de instantes vários e assinada a várias mãos, que celebra a arte literária como arte da generosidade e do diálogo - com a vida e com os autores que mais amamos. Com uma escrita que por vezes parece ser para crianças mas que depois é para adultos - e vice-versa. Com um território literário de fronteiras vagas apenas definido na ideia de que a linguagem é o melhor brinquedo que alguma vez podíamos ter à disposição. Isso: para tratar e confundir alguns dos temas que mais interessam, como a infância, a morte e as limitações da própria linguagem.

 

Encontrei, sim, encontrei o Manuel António Pina festejado a propósito de um prémio maior que recebeu e ainda atónito com a pomposa bandeja que lhe puseram à frente: "É a coisa mais inesperada que podia esperar hoje". Fiquei, como tantos, feliz com o gesto. Um pouco como Abel Barros Baptista, que comentou: "Deve ser dos poetas vivos, daqueles que leio, o que mais admiro. Tem sentido de humor, o que não é muito frequente nos nossos poetas". 

 

Acompanho Pina há uns aninhos. Na poesia e na crónica, esse género que pratica com aquela dose de apegos e irritações que, quando se juntam a uma voz e a um estilo próprios, definem os melhores no género. Lembrei-me (ou o meu ego) hoje da artigalhada que escrevi para o "DNA" sobre "Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança" e sobretudo da dedicação que a minha amiga Inês Fonseca Santos (agora no "Câmara Clara") teve, em 2004, para com o autor e a sua obra (e pouca gente sabe disso) na sua tese de mestrado "A Poesia de Manuel António Pina - O Encontro do Escritor com o seu Silêncio", onde escreveu o seguinte: "Para um signo há inúmeros similares, inúmeros significados, e estes, entrecruzando-se, confirmam a riqueza de uma poesia que, glosando o mesmo, infinitamente se renova, recriando o ser e a palavra".

 

Recordo agora tudo isso - e  ainda aqueles gatos que sempre o rodeiam, sobre os quais escreveu uma prosa que era para ser poesia. Vai ser bom: as pessoas vão procurá-lo mais nos próximos meses.  E topo a ironia. Ele que, no "Anacronista", tanto vilipendiou "os economistas" (como símbolo de um país que até nos sonhos faz relatórios), destronou-os no dia de hoje. É uma forma de justiça - no caso, autenticamente poética.

publicado por Nuno Costa Santos às 17:56
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