Segunda-feira, 9 de Maio de 2011

tv shop

Desconfio da ideia de que o objectivo supremo da espécie humana seja a felicidade. O que a maioria de nós verdadeiramente deseja é reconhecimento. Porquê? Porque sermos reconhecidos faz maravilhas pela nossa vida sexual. (E isso, admito, ajuda a ser feliz.)

As pessoas que aparecem na televisão criaram este mito: “A televisão faz-nos mais gordos.” É treta. Pelo efeito que a passagem duma celebridade provoca nos olhares do mulherio, tudo aponta para que nos faça mais magros, vinte centímetros mais altos, bronzeie e dê mais cabelo. Dizem que engorda para os outros não irem lá, pedir o seu quinhão. Um pouco como o poder que alegadamente desgasta ou o dinheiro que não traz felicidade.

A televisão, embora albergue toda a espécie de gente, de jornalistas a actores, desportistas a músicos, presidentes da junta a meteorologistas, padres cantores a criminosos arrependidos, transforma-a toda numa só classe, vulgarmente descrita na expressão de contentamento com que o mortal avista um exemplar na mesa do restaurante: “Olha! É aquele senhor da televisão!”

Os benefícios começam logo aí, no boteco ou na pastelaria. O gerente manda servir o prato especial, o melhor vinho e, no fim, ainda é capaz de oferecer a refeição a troco de um autógrafo na ementa das sobremesas. Então, decifrando com esforço as garatujas da celebridade, descobrirá, em júbilo, que acabou de apertar a mão a Anthímio de Azevedo. (É só um exemplo. Poderia ser a Popota, mas, no caso dela, é provável que se lembrassem do nome antes do autógrafo.)

Episódios semelhantes têm lugar por porta a parte no dia-a-dia do famoso, do solário à retrosaria. E, por todas elas, há rapazes ou raparigas suspirando, olhando-o em maravilha frágil, ansiando por uma tórrida noite de hotel ou eventualmente algo mais íntimo como uma troca de palavras.

Tudo isto se torna por demais evidente quando se trata da rara categoria do intelectual-vedeta: é vê-lo passear-se com companhias bombásticas pelo braço, do género daquelas que mais o desprezaram nos tempos de escola ou, tenebrosa palavra, anonimato, numa suave troca de favores: ela dá-lhe a beleza que ele nunca teve; ele faculta-lhe o cérebro.

Por que acontece assim? É difícil dizer. Aparentemente, o indivíduo comum entende que a fama doutrem o pode rebocar da zona sinistrada da vida onde se encontra desde que nasceu até ao lado de lá da margem, onde todos oferecem o melhor vinho e aguardam, suspensos, as primeiras palavras banais que se tenham para dizer.

O futebolista já experimentou. O bastonário da ordem também. Até o senhor que falou para a televisão acerca daquele vizinho que ajudava sempre com os sacos das compras e que, um belo dia, incendiou a avó.

De que é que estamos à espera?

publicado por Alexandre Borges às 14:31
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1 comentário:
De Anónimo a 9 de Maio de 2011 às 15:40
A expressão \" SENHOR da TELEVISÃO\" já conheceu melhores dias... ;-)!

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