Domingo, 8 de Maio de 2011

Amo-te. Odeio-te. Amo-te.

Para o  Hugo Gonçalves e João Amaro Correia

 

 

Às vezes és tão puta. Tão sacana, tão sinuosa, tão maquilhada nessa beleza que quem te conhece sabe que tens mas quem não te conhece fica apenas por aí, nessa armadilha que tu arranjas para evitar que todos te amem e só amares quem tu quiseres. Esses, como eu, que te percorrem o corpo, as veias e encaram com tanta naturalidade como raiva o facto de um dia acordarem a odiar-te e a dizer que às vezes és tão puta.

 

Repara: nem era suposto estar aqui a escrever-te, a descrever-te. Tinha um texto preparado, piadolas alinhavadas sobre a compra de bilhetes com antecedência e como isso muda a nossa existência. A tanga do costume, erudição de micro-ondas com uma gracinha que me resta. Estava feito, leve, lia-se com gosto, não me chateava e sobretudo não maçava ninguém. Mas não, não: tinhas que voltar a entrar-me pela alma, a tua cabecinha ainda cheia das palavras lindas que te ofereceram, do Ary ao meu amigo Hugo, tudo o que te gostaria de escrever, eu a quem me pedem palavras para fado, eu que sem querer já estava a começar a viver sem ti, sem que fosses um problema, um ciúme. Bastou uma noite, em casa de amigos, uns minutos numa varanda em Santa Catarina, o rio ao fundo, o teu melhor aliado, sujo ou limpo funciona sempre. E  voltei a ver-te pela janela  na tua grandeza, o melhor vestido posto, antigo mas sempre em moda, e aí vou eu, sem remédio numa contemplação apaixonada, a beber de cada um dos teus passos vagarosos e fora deste tempo. Um tipo, desde que tenha sangue quente, esquece-se de tudo - com quem te dás, a quem te deste, o que me negaste. Evita outra vez o ódio dos dias, o incómodo do quotidiano que mesmo quando não quero tu representas, nos gestos feios que digo, nos palavrões matinais que não consigo evitar e que servem de gáudio aos meus filhos quando os levo à escola. 

 

Admito: a culpa é minha, que me passeio em ti, no teu mais podre e no teu mais rico, e invejo a força e dignidade com que ainda suportas os mil olhares que te atravessam, às vezes com o ar trágico da velha actriz que retira a maquilhagem frente ao espelho. Talvez te tenha visto algumas lágrimas, mas mesmo quando foste violada – e voltarás a sê-lo, tu sabe-lo bem – o que fica é essa resistência dita entredentes, como quem antecipa a vingança. 

 

Conheci tantas outras, mais bonitas. Apaixonei-me por elas, elas por mim, sem perguntas nem dramas. Algumas tão perto, amantes de fim de semana, trezentos quilómetros e aí estou eu. Tantas que tinha a certeza terem a ver comigo, umas dramáticas e sombrias, outras intelectuais e criadas em plena civilização, outras esculturais e de uma elegância soalheira que me preenchia. Pensei deixar-te, sabes disso. Por amor, por ódio, por fastio. Responder aos acenos que outras me faziam com tudo o que julgava acreditar. 

 

E é a ti que volto, a que sempre voltei. Não à minha vida mas a ti, que a conténs. E odeio-te por isso, e amo-te por isso, minha puta, minha cidade, minha Lisboa de coração com sentido irreversível. 

publicado por Nuno Miguel Guedes às 06:25
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2 comentários:
De Ana Paula Afonso a 8 de Maio de 2011 às 10:21
Fiquei muda. E a minha paixao cresceu.
De Maria de Morais a 8 de Maio de 2011 às 11:47
Obrigada, M

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