Segunda-feira, 2 de Maio de 2011

do homo sapiens sapiens à aparição do especialista

Não há, no espaço mediático, figura mais apaixonante do que o especialista.

O especialista é uma daquelas dádivas dos tempos modernos, como o smartphone ou as companhias low-cost. Ele veio para nos facilitar a vida.

Em tempos, os noticiários eram apresentados por uma só pessoa, o pivot. Hoje, olhando imagens antigas, essa figura de mártir parece um velho agricultor antes da invenção da maquinaria. Ele lavrava sozinho todos os assuntos, da política ao desporto, do espectáculo ao internacional. Como conseguia? Mistério. E, acima de tudo, de que forma mágica se operava o entendimento no público? Como conseguia o comum mortal interpretar os factos noticiosos? Ele… (rufar de tambores) pensava. Como o camponês trabalhava a terra com as próprias mãos e utensílios rudimentares, o cidadão juntava causas e consequências, operava induções e deduções com – ó desumanidade! – o próprio cérebro.

Felizmente, esses dias acabaram. De há uns anos para cá, não há pivot que não surja devidamente acompanhado de quem pense por ele e, hélas, por nós. Porque o especialista, quando nasce, é para todos.

Esta evolução da espécie começou por uma área particularmente complexa: o futebol. O apresentador / apresentadora limitava-se a dar os resultados da jornada e passava as questões complicadas ao especialista em bola. Depois, do alto da cátedra, o doutor eventual debitava conhecimentos sobre quem marcou, quem jogou melhor, onde falhou quem falhou, por que foi a bola ao poste, por que agarrou os calções do adversário o jogador x, por que mordeu o menisco e não a canela o atleta y.

A pouco e pouco, criou-se um novo mercado. Como o corretor da bolsa que se substitui ao cérebro do investidor, o empresário que pensa enquanto o futebolista se concentra exclusivamente em chutar a bola, o gestor de conta que sacrifica a vida terrena a livrar-nos do trabalho sujo de orientar as poupanças, os especialistas brotaram e multiplicaram-se, interpondo-se entre nós e qualquer área do saber. Hoje, temos generais na reforma que são especialistas em todas as guerras em que não combateram, professores universitários em Lisboa que dominam os meandros das organizações terroristas no Afeganistão, pessoas que fizeram turismo em Beirute e assim se tornaram aptas a decifrar todo o Médio Oriente. E politólogos, muitos politólogos, profissão que, por ignorância nossa, viveu séculos na obscuridade até que, há coisa de uma mão cheia de anos, veio finalmente à superfície iluminar o real e colher a merecida glória por descodificar o mistério dos mistérios: o político português.

Aguardam-se aplicações para iPhone de cada um deles, linhas directas de aconselhamento para onde podemos ligar 24 horas por dia, um pequeno especialista pessoal que ajude os nossos filhos a estudar, escolha por nós a fruta no supermercado, encha as estantes com os livros que devemos ler e ponha por nós a cruz no quadradinho certo no boletim de voto.

Astrólogos da actualidade noticiosa, oráculos diplomados, filósofos com mais internet e menos metafísica, os especialistas libertaram-nos da opressão do pensamento próprio.

Deus os abençoe (partindo do pressuposto de que exista. Mas isso só um especialista em deuses e criações de mundos poderá esclarecer).

publicado por Alexandre Borges às 15:36
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2 comentários:
De Isa a 2 de Maio de 2011 às 16:43
Muito, muito bem visto. E vou-te dizer, há cada especialista que deus me livre... e mta desonestidade intelectual para se achar especialista... Ganha o especialista, perde o canal que o chama nessa condição, digo eu...
Bjo
De Sílvia a 3 de Maio de 2011 às 17:23
Digno de aplausos o seu texto. De facto, a "nossa" opinião sobre o que vai acontecendo connosco e com os outros aparece irremediavel e tristemente conformada pela visão de especialistas que debitam sofregamente entendimentos que se assimilam de forma amorfa (...e quem distraidamente ousar contraditar será digno merecedor, no mínimo, de olhares de censura; afinal x ou y disse!). Relacionado com esta questão de algum modo está o período de tempo cada vez mais alargado dos noticiários, preocupados em fazer da informação estória e de nós clientes fiéis.

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