Sexta-feira, 29 de Abril de 2011

Receber em casa

Receber é uma arte maior que nos define bem - como somos e como gostaríamos de ser. Há de tudo, como na farmácia- desde o anfitrião subitamente formal, que só nos começa a tratar por tu ao quarto prato, ao pramático e fonas que, com um sorriso, apela a todos os comensais para ingerirem directamente do chamado tupperware. Do confiante, mais apostado na converseta do que na comezaina, ao susceptível, capaz de ficar de trombas a partir do momento em que não elogiamos com as palavras certas o arroz à primeira garfada. Gente capaz de escolher a música adequada ao repasto a rapaziada mais arriscada, que durante a janta deixa a tocar um CD de um primo psicopata, com um alinhamento que pode ir de Miles Davis a trash metal lituano.

 

Como é que posso dizer isto? Não me considero anfitrião de rasgo mas tavez não seja o pior cá do bairro. Sou acima de tudo um adepto da causa. Era capaz de fundar o Partido dos Que Recebem em Casa, até porque sinto ser uma prática que vai escasseando cada vez mais "na minha geração" - que é a mesma do JP Simões. Estamos cada vez mais prontinhos para ir jantar à hamburgaria da moda e menos disponíveis para estar com os nossos em território privado. Cresci a jantar em casa dos amigos dos meus pais - e sei que as gargalhadas em casas dos amigos têm outro tom, duram mais tempo. Um dos sons que guardo para a vida é a gargalhada em uníssono dos amigos dos meus pais - aquela que chegava ao andar de cima onde a petizada dormia no chão, nessa altura em que as crianças ainda andavam de um lado para o outro, sem cuidados extremos e preocupações exageradas: "Ó, coitadinho do miúdo, está com tanto soninho".

 

Hoje ofereci em casa a dois amigos aquilo que se pode classificar como um dos piores almoços do universo - um bife duro e sensaborão, acompanhado de umas batatas fritas finlandesas, sobretudo na temperatura. Mas vivi um dos momentos que irei levar alegremente comigo para a tumba. Faço, sim, parte daquele grupelho de cidadãos que nunca se habituou ao costume lisboeta do "cafezinho".  Esta coisa do "temos de ir tomar café" sempre me pareceu uma desculpa para fugir a uma experiência cada vez mais bizarra e alternativa, possivelmente à venda no futuro num pacote da "Vida É Bela": a intimidade. Prefiro estar com um amigo na sua cozinha cheínha de pratos amontados no lava-louças do que na mais reluzente das Versailles. A propósito, sinusíticos amigos, quem é que agora se chega à frente, pá?

publicado por Nuno Costa Santos às 18:42
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