Sexta-feira, 29 de Abril de 2011

Mario em Ithaca

Uma série sobre o programa animal: comer, não ser comido e dar a comer

 

Quanto menor for o protagonismo, maior será o poder de observação. Aplicada a casamentos, esta simples regra produz um corolário que apenas é óbvio a posteriori: as piores testemunhas de um casamento são os noivos. Pela mesma lógica, os 2000 milhões que assistiram à transmissão televisiva da boda de William e Kate seriam os seus mais fiéis relatores, mas tal como a mecânica clássica deixa de funcionar para velocidades muito elevadas e tamanhos muito pequenos, também esta regra falha quando não se recebeu um convite. Daí que a recordação mais viva que guardo de casamentos é a daqueles a que fui como apêndice de alguém e de onde saí sem deixar outra marca que não fosse uma presença no álbum de fotografias que no futuro ninguém saberá explicar. Embora esta ausência de reciprocidade no peso que um tem na memória do outro seja terrível no amor e estereotipada no par ídolo-fã, dela podemos retirar algum gozo e identidade. William & Kate jamais terão na minha vida a importância do porto-riquenho Mario e isto não é uma afirmação de republicanismo, nem um sinal do complexo do homem branco.

 

Quando os meus amigos se estavam a casar pela primeira vez, o ritual passava por alugar uma quinta dos arredores de Lisboa. Dada a constância fisionómica dos lusitanos e a homogeneidade de gostos e tendências da classe média, o que resta hoje é uma lembrança que conglomerou todos os casamentos numa única quinta, num único casamento, em Maria, a conglomerada noiva, e numa única ressaca, felizmente de intensidade não cumulativa. Comecei depois a ir a casamentos no estrangeiro e ainda é cedo para saber se a lembrança destes envelhece melhor, não havendo até grandes motivos para assim pensar - se não se sai dos territórios da civilização ocidental, os casamentos variam mais com a condição social do que com a geografia. Mas como estes casamentos foram mais cosmopolitas do que o da quinta alugada do arredores de Lisboa, é natural que algum registe a combinação da minha falta de protagonismo com a presença de alguém tão excêntrico que só mesmo passando revista às quintas dos arredores de Lisboa que não se alugam esperaríamos dar com um exemplo à altura. 

 

Em 2007, desloquei-me à Argentina para o casamento do melhor amigo de um grande amigo meu. O melhor amigo do meu amigo fez dele um dos três padrinhos e o meu amigo fez de mim o seu par. O casamento começou em Buenos Aires e acabou em Mendoza, capital de uma região vinícola. Sendo o noivo um americano de ascendência argentina, a noiva uma franco-britânica, e vivendo ambos em Nova Iorque, muitas nacionalidades estavam representadas entre os convidados. Mario vinha de Puerto Rico, precedido pela sua fama. Tratava-se do "sweetest guy", um galerista de Williamsburg com um perfil feito pelo caderno Style do New York Times. Imaginei-o como uma espécie de brainy Ricky Martin e a perspectiva de o ter a dormir no quarto que eu partilhava com o padrinho, espaço com duas camas e um divã, foi crescendo, até que adormeci. Por volta das duas da manhã, sinto um peso sobre o corpo, como se alguém me estivesse a cobrir com uma pele de urso mas sem ter tirado o urso lá de dentro. Era Mario. Quem teve o ângulo privilegiado foi o padrinho. Recuemos uma hora. Mario entra no quarto e há indícios de que foi capaz de despir a camisa, mas não as calças. De cada vez que o tentou, caiu com estrondo no chão, acordando o padrinho, que contou pelo menos uns 3 tombos. Quando as calças finalmente venceram os calcanhares de Mario, não contente com o divã, ele resolveu experimentar a minha cama. Conta o padrinho que um Mario de cuecas se deitou sobre...  (Já acabo)

publicado por Vasco M. Barreto às 23:50
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1 comentário:
De Sílvia a 3 de Maio de 2011 às 22:09
Ehehe! Essa de acordar com um um urso em cima, quer dizer, algo parecido, é algo hilariante. Já agora, na altura pensou mesmo que era um urso? (eheh). E para finalizar, acabou mesmo sem acabar ou não tendo acabado ainda vai acabar? Fiquei confusa... De repente pensei que poderá querer fazer de nós, leitores, escritores, e vai daí fica o resto da história a cargo das nossas frutuosas, ou não, imaginação e pena. Mas deduzo que não deixaria a sua história nas mãos de tal trágico ou sorridente destino (o problema, não obstante o reconhecido poder da surpresa - está precisamente nas alternativas que a priori não determinamos como certeza...) Gostaria de contar com a sua ajuda para o esclarecimento de tão premente questão... :)

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