Sábado, 23 de Abril de 2011

A triagem do Martim Moniz

A história que se segue é um exercício em racismo social, por isso, se acreditam num mundo melhor, na tendência natural do ser humano para praticar o bem ou em outras bacoradas existenciais do género, escusam de ler. Adiante.

 

"But his soul was mad.  Being alone in the wilderness, it had looked within itself and, by heavens I tell you, it had gone mad."

Joseph Conrad, Heart of Darkness

 

Uma infecção no ouvido levou-me no outro dia ao coração das trevas (do atendimento ao público). Se Joseph Conrad algum dia tivesse dado por si nas urgências do S. José, acho que reescreveria o romance de uma ponta à outra. Não me obriguem agora a pensar muito, mas imaginem que o Kurtz dava entrada nas urgências com uma intoxicação alimentar e quando o Marlow lá chegava, isto depois de uma xaropada de páginas a descrever o estacionamento em segunda fila na Almirante Reis, os pretos do Intendente and whatnot, encontrava o Kurtz numa cama em pleno corredor, por via de paludismo contraído enquanto esperava por uma consulta. O resto inventam vocês, não me pagam para isto.

 

Para quem não sabe, o serviço de urgências do S. José é uma das mais conhecidas ETHR (Estação de Tratamento de Humanos Residuais) da cidade. Há outras na área metropolitana de Lisboa, e mais podia ser dito sobre o conceito, mas é como vos digo, o objectivo aqui é escrever textos não muito longos e fazê-lo de borla, por isso, se querem mais, façam de conta que isto é o New York Times e arrotem qualquer coisinha.

 

Para começar a experiência, fui atendido por um gajo sem farda, todo cheio de tiques urbanitas. Perdoem-me os leitores por eu não ser holandês ou o caralho, mas ser atendido na chegada a uma urgência por alguém que se vestiu como se estudasse design de moda no IADE não é uma merda que me caia bem. A pessoa que nos recebe no hospital, quando temos 38 de febre e uma otite, não devia ter um corte de cabelo no valor de 7 taxas moderadoras. Correu melhor do que esperava, na medida em que foi rápido, indolor e que, se Deus quiser, nunca mais o volto a ver.

 

Seguiu-se a triagem, “inspirada no modelo de Manchester”. Isto é uma daquelas alturas em que o meu cérebro pensa simplesmente “LOL!” (tenho 29 anos, nenhuma ambição de ser lido daqui a um século, e cresci a usar o mirc). A triagem de Manchester é uma invenção curiosa na medida em que parece ter sido descoberta em Portugal: lixa o esquema aos que são honestos e premeia os chicos-espertos. A coisa passa-se assim: se o paciente chegar lá e disser a verdade sem dramatizar, pior, se o fizer em português escorreito, estilo “sinto dores no ouvido e padeço de uma febre ligeira”, recebe uma pulseirinha verde, que é a melhor forma que a instituição de saúde tem de nos dizer “agora esperas aí sentadinho umas horas que é pra não seres flor de estufa”. Isto foi o que me aconteceu. Por outro lado, se um gajo chegar lá e disser que tem 39 graus de febre e não consegue encostar o queixo ao peito, epá, pára tudo, dêem uma pulseirinha laranja a este fulano que ele vai morrer! Esta é a forma que o hospital tem de dizer que o nosso caso é importante, o que não significa que sobrevivamos. Como isto não é um episódio de Grey’s Anatomy, vamos esperar umas horas na mesma (entretanto há mais 50 gajos com sintomas de meningite ou gripe A). Quando chegar a nossa vez, também não vamos ser atendidos por uma neurocirurgiã charmosa, nem mesmo por uma chinesa com sentido de humor, mas sim por um calhau qualquer, cujo ar empedernido deve ser atribuído à vida miserável que os salários no público e no privado lhe proporcionam. Portanto, foi este o doutor que me calhou em sorte. Nem a Grey, nem a chinesa: um calhau falante.

 

Mandou-me fazer análises ao sangue como quem faz um favor, e voltar para a sala de espera. Lá fui, todo eu pulseirinha verde de resignação. Ocupei um lugar na sala de espera, onde pelo menos 3 pessoas esperavam agora pela sua consulta deitadas, duas em cadeiras e uma no chão, mostrando de forma cabal a diferença entre estar doente e ser-se doente. Alguns minutos passam e a impaciência aumenta, mas eis que alguém do lado de lá parece pronto para chamar o próximo. Depois de alguns segundos de feedback em que não percebemos se as pessoas que usam microfones nos hospitais são extremamente tímidas ou apenas estúpidas, todos ouvimos o mesmo nome ser chamado: Coronel Urso. Eu gostava de ter uma graçola melhor para terminar a crónica, mas não tenho. O senhor Coronel Urso, que eu vira algumas horas antes rasgar 2 páginas de uma TV 7 Dias, levantou-se e lá foi. Fora atendido antes de mim e preparava-se agora para regressar à vida activa com uma receita de anfetaminas, imagino. A pulseirinha era laranja, claro. Mais uma história feliz na luta contra a meningite. Quanto a mim, passei as 2 horas seguintes à espera que um calhau me receitasse Clavamox. Obrigado, Manchester. A sério.

 

publicado por Vasco Mendonça às 18:41
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