Quinta-feira, 21 de Abril de 2011

Este moço atira-se ao olho

Dizem que a brasileira é que é boa, a espanhola idem, melhor só a americana que está em todo o lado. Que a nossa é perra e parca em prazeres, que não se arredonda nem dança com a mesma gula. Não creio. Temos com a nossa língua a mesma relação que com o nosso bairro: de tanto o percorrermos parece-nos banal. Anda a faltar-nos um pouco de turismo da língua: olharmos de novo os azulejos de um vocábulo, o reboco de um adjectivo, as longas avenidas dos advérbios de modo.

Houvesse clube dos turistas da língua, com quotas e bandeirinhas e eu estava lá. Não sou um turista sério, não uso guias, não sei nada da cultura local – apenas se me acontece dar de caras com uma expressão e ficar estacado a pensar “Como raio nunca reparei no profundo génio que emana desta expressão?”.

Por exemplo, a expressão “Dar nas vistas”. Parece a frase mais simples do mundo, gasta, velha, prostituída nas bocas de toda a gente. Mas é mirá-la de perto e acabamos a admirá-la. Deixem-me explicar.

O génio começa no uso de “vistas”. Imaginem que o autor da expressão tinha, no momento da criação, optado por dizer “Dar no olho”. Por exemplo: “Este tipo dá muito no olho”. Não era a mesma coisa, certo? “Vistas” tem a exacta dimensão popular que a expressão precisa: atribui-lhe uma certa rudeza, mas ao mesmo tempo uma certa bonomia rústica.

O talento do criador adensa-se no uso do verbo “Dar”. O criador podia ter escolhido “Atirar-se às vistas”: “Este moço atira-se às vistas”. Ou, num momento de confusão, “Este moço atira-se ao olho”. Ou ainda, no momento em que os cogumelos começassem a fazer cócegas nas traseiras do cérebro, “Este moço dá-se ao olho”.

Subtil, o criador recusa verbos como “bater” (“Este moço bate nas vistas”). Opta por um verbo despojado, o verbo “dar”. E depois inverte-lhe a polaridade, tornando a doação um acto não de generosidade mas de uma indesejada generosidade, esmola de que se desconfia num país pobre. O moço “dá nas vistas”, acerta-lhes, mas sem sem atirar contra elas: é como se o desastre entre o moço – que o criador da expressão se abstém de qualificar – e as vistas – puras, puras, puras – fosse inevitável, uma tragédia que o país esperava há muito.

Por vezes passo, digamos, minutos inteiros a tentar imaginar como é que estas expressões surgiram, no apuro do seu tempero.

Terá o criador tentado a expressão com diferentes amigos, como um comediante a experimentar uma piada? Terá a expressão sido recebida vezes sem conta com um silêncio incómodo até que um dia, sem que se notasse, reinava sem par no império infeccioso da língua, enquanto o seu autor se recolhia para sempre na sua cave, humilhado pelos silêncios com que as suas expressões eram recebidas? Ou será que algum esperto ouviu uma forma inicial da expressão e depois a aprimorou?

Nunca vamos saber. Nem com certeza nem sem ela. Porque ao contrário das outras a nossa língua não dá - errr - nas vistas.  

publicado por João Bonifácio às 18:50
link do post | comentar

Autores

Pesquisar

Últimos posts

Contra nós temos os dias

Do desprezo pela história...

É urgente grandolar o cor...

Metafísica do Metro

A Revolução da Esperança

Autores do Condomínio

Hipocondria dos afectos

A família ama Duvall

Notícias do apocalipse

Meia idade comparado com ...

Arquivo

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

tags

todas as tags

Subscrever