Sexta-feira, 15 de Abril de 2011

Em casa, aqui ao lado

 

(a foto de um sinal português em Marrocos)

 

 A genuinidade. A autenticidade. Foram essas as coisas de que mais gostei em Marraquexe, cidade que visitei recentemente. Quero voltar - até porque sinto que fiz apenas uma primeira e superficial viagem de reconhecimento. Que preciso de falar mais com as gentes, de circular, de levar com mais poeira. Há muito turismo, como se sabe, mas as pessoas não estão ali para a fotografia - até nem gostam disso. Praticam os seus ofícios ancestrais porque querem prosseguir aquilo que lhes foi transmitido por pais e avós. Mesmo quando são vendedoras insuportavelmente insistentes estão a ser o povo comerciante que sempre foram.

 

Escrever sobre Marrocos é bater, melancolicamente,  na mesma tecla, daquelas que já não funcionam: está mesmo aqui ao lado e não conhecemos o país. Percebo o Rui Tavares quando escreveu recentemente isto: "Rabat está a seiscentos quilómetros de Lisboa. Conhecemos nós, ao menos, a sociedade marroquina?". Não, não conhecemos. E é pena. Porque há aqui ao lado um povo de tradições e cruzamentos vários, material fabuloso para os contadores de histórias da Praça Jemaa El Fna, que todos ganharíamos em conhecer. Aconteceu-me um pequeno e burlesco episódio nessa praça.  Dei uma moeda a um velho homem que ma pediu e mais tarde apanhei-o a pagar o serviço de um feiticeiro com esse mesmo dinheiro. É assim Marraquexe. Cheia de personagens. De histórias sem moralismos óbvios e com uma ética própria, indecifrável para os visitantes viciados em exotismo e bugigangas.

 

Há aqui, a uma hora de viagem de avião, fragâncias de especiarias que fazem parte da nossa História e que merecem ser apreciadas e sentidas, como quem visita o dicionário dos primeiros cheiros, daqueles que inspiraram os nossos antepassados. E há uma forma de viver o Islão que só ganharíamos em conhecer, até para percebermos as várias tonalidades de que é feito. Às cinco da manhã, em  Marraquexe, fui surpreendido pela chamada para a oração, através das colunas instaladas nas ruas, e tive um sentimento de temor próximo daquele que tinha em miúdo na minha ilha, quando nas estradas passavam os romeiros a entoar os seus cânticos de súplica divina.

 

Percebo Manuel Poppe quando escreveu uma história como "Um Inverno em Marraquexe", sobre uma mulher em processo de afirmação numa sociedade ainda conservadora em relação à condição feminina, apesar da diversidade  - tanto há mulheres tapadas com burkas como raparigas a conduzir motas sem capacete.  Percebo Sousa Tavares quando escreveu um texto tão rico como "Emboscada em Marraquexe", que começa com a história do inglês John Hopkins, habitante da cidade durante 22 anos (sem regressos à Europa), e depois homenageia Churchill, um dos extravagantes frequentadores assíduos do hotel Mamounia, por onde passei para lhe sentir o perfume e a grandiosidade.

 

Têm havido portugueses interesssados em Marrocos, sim. Ainda são poucos. Precisamos de desenjoar da Europa, de uma Europa que começa a perder a curiosidade e a celebrar o calculismo. Se calhar devíamos olhar para Sul - um Sul aqui bem perto. Começar por Marrocos. Um país onde um rapaz, numa pequena aldeia num deserto próximo da cidade, abriu as portas apenas para nos convidar a entrar e oferecer aquilo que tinha para oferecer: um chá de menta e uma conversa.

 

E eu que só percebi quando cheguei a Lisboa que havia calcorreado as ruas, as praças, os souks e os Riads com uns Camper "made in Marocco". Se calhar foi por isso que me senti em casa.

 

publicado por Nuno Costa Santos às 20:00
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3 comentários:
De Ana Matos Pires a 16 de Abril de 2011 às 22:46
De Anónimo a 17 de Abril de 2011 às 00:25
“Voa Maria voa”

Vento que sopra nas asas
Colocou a Maria a voar
Vendaval não pode parar
Em Bruges há-de aterrar

Estava muito produzida
Segura com Júlia a falar
E tudo ela soube explicar
Nosso apoio é pr’a ficar

Vejam o vídeo na rede
Se não querem acreditar
Neste exemplo sem par

Voa nas asas do vento voa
E não se cansem de ajudar
Sonho assim não pode parar.


http://takeustobruges.blogs.sapo.pt/

http://sic.sapo.pt/proj_queridajulia/Scripts/videoPlayer.aspx?videoId={B0C9642E-CECC-4E34-9EBA-3647D34DABA4}
De Nuno Costa Santos a 18 de Abril de 2011 às 10:24
Obrigado, Ana, pela dica!

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