Segunda-feira, 11 de Abril de 2011

retrato do artista enquanto marido

O artista tem de vencer incontáveis obstáculos na perseguição do seu destino. A busca por um mundo próprio, o apuramento da forma, a ânsia do reconhecimento, o duelo com as expectativas, o silêncio das musas, a persistência num método, a crítica e a auto-crítica, um sem fim de medos, bloqueios, desejos e outros perversos ardis da consciência.

Nenhum, porém, lhe dá mais luta do que a vida conjugal.

Em matéria de relações amorosas, o artista só colhe benefícios durante os primeiros meses. A novel companheira é, então, uma presa que ele atrai com versos grandiloquentes, observações sensíveis do mundo, citações avulsas polvilhando conversas banais, visitas guiadas a territórios sagrados de cultura, o desarmante sex appeal de uma obra publicada ou, mistério dos mistérios, daquela que se enche de pó nas gavetas.

São dias de glória, esses. O artista sente que tudo fez sentido: nunca ter subido a uma prancha de surf ou percorrido estradas de moto e cabelos ao vento, não ter investido na construção de uns abdominais de Hércules ou aplicado as poupanças num daqueles potentes descapotáveis com que os outros roubaram, anos a fio, toda a freguesia. Afinal, o tempo consumido entre livros, discos e filmes também serviu para trazê-lo ao objectivo supremo da espécie: o acasalamento.

Agora, a companheira apresenta-o orgulhosamente à família e às amigas. É poeta, diz, enlevada. Ou pianista, contrabaixista, pintor, fotógrafo, cineasta. Os olhos em volta contemplam-no como a uma estátua. A curiosidade sobre o que pensa sobre toda e qualquer coisa parece ilimitada.

Volvidos esses meses fulgurantes, o fascínio escorre, no entanto, pelo prodigioso ralo dos dias. Agora, o artista e a companheira vivem juntos e a arte terá de disputar taco a taco com a roupa por lavar um lugar no topo da hierarquia das urgências.

Escrever um poema ou limpar a cozinha. Pensar uma metáfora ou fazer a cama. O diálogo decisivo de um filme ou arrumar as compras. O perfil de uma personagem contra o estendal da roupa, a composição magistral contra os dejectos dos gatos, o hino triunfal contra o lixo que tem de ser posto na rua. A guitarra enfrenta o berbequim. O suplemento literário o pano do pó. O tríptico alegórico a loiça gordurenta. O neo-desconstrutivismo o ferro de engomar. O retrato pós-apocalíptico a lista de compras.

Em cima disto, o tempo para falar destas e doutras coisas. Porque já não falam. Porque o artista não ajuda em casa. Porque o artista anda muito calado. Não é, hélas, o homem com quem ela casou.

E as visitas à mãe, às amigas e às amigas que acabam de ser mães. A viagem a dois porque há muito tempo não estão sozinhos.

O processo culmina no terno desabafo dela: nunca apareço nos teus poemas / romances / canções / filmes / quadros / riscar o que não interessa. O artista pensa responder qualquer coisa menos artística, mas prefere dizê-lo abafado pelo som do aspirador.

Chegado a isto, ele pergunta-se se Schopenhauer teria as mesmas queixas. Passaria Chopin mais tempo a limpar o piano do que a tocá-lo? Quantas vezes terá Hemingway interrompido a redacção de Adeus Às Armas para recolher a roupa e fazer outra máquina?

As questões vão e vêm sem resposta. Enquanto a tarde cai e a roupa roda no tambor, os gatos pedincham comida e o homem da companhia faz a leitura do gás, o artista pensa que já não saberia viver doutra maneira. Épicos e românticos estão fora de moda; realistas e niilistas vão pelo mesmo caminho. Que resta a um artista-marido senão a doce metafísica da normalidade?

publicado por Alexandre Borges às 17:56
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6 comentários:
De Isa a 11 de Abril de 2011 às 20:08
que saudades... :) adorei!
De Alexandre Borges a 11 de Abril de 2011 às 21:10
:) Obrigado, Isa. A sempre presente e atenciosa Isa.
De São João a 11 de Abril de 2011 às 21:59
O artista enquanto solteiro não precisa de lavar a roupa, nem a loiça, não precisa de fazer a cama nem a comida, não precisa de limpar o pó nem a sanita. O artista enquanto solteiro tem poderes sobrenaturais.
De Alexandre Borges a 12 de Abril de 2011 às 00:36
Claro. Mas decide fazer o que precisa de fazer quando quer fazer. Certamente não se contradiz a si mesmo, ora achando num instante que está num êxtase místico de criação, ora dizendo a si próprio que isso é tudo muito bonito, mas que é preciso mudar a bilha do gás. Cumprimentos.
De Sílvia a 12 de Abril de 2011 às 00:28
Chopin tocava e limpava o piano de forma alternada e desequillibrada. Os entretantos passava-os com a normalidade. Ou então o inverso. Os entretantos com a sua ausência. Fala do artista apaziguado com a normalidade, que se transfiigura em ponto de partida da reflexão porventura... Arte esboçada na roupa colorida que se enfileira ou no olhar penetrante do gato, no tambor que gira que gira ou nas partículas de pó suspensas na claridade do final do dia.
De Sílvia a 13 de Abril de 2011 às 00:51
Ou a normalidade é só isso, sim. Uma pausa imposta pela realidade na criação.

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