Domingo, 10 de Abril de 2011

Memórias com acne: Classic, o slow que veio do sótão.

Não sei se existe algum estudo científico que relacione a produção de testostrona com o défice de critérios estéticos mas não me admiraria se fosse revelada agora a proporcionalidade directa entre uma e outro. Na ebulição adolescente os gostos musicais masculinos tornam-se ecléticos e utilitários, tendo como único objectivo o aperfeiçoamento do ritual do acasalamento. E no meu tempo, ó felizes púberes de hoje, isso significava não poder escapar a uma terrível prova de iniciação: o slow.

Derradeiro sobrevivente de uma época em que se dançava a dois, o slow era muitas vezes a primeira oportunidade de contacto mais íntimo com o sexo oposto. No alinhamento discográfico de uma festa caseira havia sempre o momento solene do slow, que teria de acontecer nem muito tarde nem cedo demais. Normalmente surgia depois de consumidos e bailados os hits do momento (cuja característica era a total ausência de coerência musical), quando o primeiro gelo começava a derreter e a conversação se tornava mais fluida. De súbito as luzes desciam (em alguns casos, mais radicais, apagavam-se) e ouvia-se a primeira canção lenta. As hostilidades tinham começado. Em regra, eram os casais de namorados já «oficiais» que davam os primeiros passos. Os outros ficavam na sombra, à espera de um assomo de coragem para convidar o par e ir dançar. Eram momentos angustiantes. Mas a certa altura tudo se tornava inevitável, quando se ouvia a canção. Em 1982, em Portugal e em toda a Europa, essa canção era Classic, de Adrian Gurvitz.

 Nessa época, Gurvitz apresentava um visual festivaleiro, ao melhor estilo eurotrash , e que incluía um penteado igual ao de Chuck Norris se este fizesse uma permanente.(a confirmar, com cuidado, aqui )  A canção condizia: pirosa, previsível, ridícula. Mas ai do desgraçado que não a dançasse: seria para sempre considerado um pária, um meteco do amor.

Menino e moço me apercebi da distância injusta entre a Arte e a Vida. Aos 17 anos, a minha formação musical avançava em passos pequenos mas decididos. Tinha resolvido com proveito a fase Doors, já tinha sido apresentado a Leonard Cohen, Echo&The Bunnymen , os Joy Division e demais catálogo da Factory  e tantas outras coisas novas e seguras, daquelas que pressentimos que irão furar o destino da música popular. A Arte mostrava-me o caminho. Infelizmente, a Vida obrigava-me a dançar Adrian Gurvitz. 

A primeira vez foi medonha. Tão nervoso como surpreso por uma rapariga ter aceite o meu convite, entrei desconfortável nos primeiros acordes: primeiro porque a rapariga teria menos 15 cm do que eu, o que tornava enigmática e perigosa a colocação de mãos e braços; depois, porque não sabia o que fazer. E como era recorrente nessas ocasiões, o hermeneuta levou a melhor - mal se ouviram os infames versos que abrem a canção («Got to write a classic/got to write it in an attic») comecei a metralhar a pobre miúda: «Não percebo isto do sótão, porque é que um clássico tem de ser escrito num sótão?», «E este erro? ‘And you was my best toy’? ‘Were’! ‘Were’ é que é!». O meu destino ficou marcado antes do solo de guitarra.

Depois deste desastre tive oportunidade de dançar Classic várias vezes. E aprendi a estar grato a esta balada manhosa, com aliterações patetas e marcação sincopada  um-um-dois que permitia o dançar estiloso do um-passo-para-a-direita-dois-para-a-esquerda. Graças a Classic descobri a antecipação da cabeça da rapariga no ombro, o leve aperto em crescendo, primeiro tímido e à procura de resposta e depois, se correspondido, um festim para todos os sentidos. No final, a consagração máxima, o toque dos lábios no escuro e o sabor adocicado do whisky-cola a percorrer a boca. Agora, com a distância e a sabedoria dos anos não consigo ver Classic como uma canção tola. Será para sempre o som e o sabor a whisky-cola dos longínquos primeiros amores.

 

publicado por Nuno Miguel Guedes às 22:41
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12 comentários:
De Isa a 11 de Abril de 2011 às 00:34
nós devemos ser do mesmo ano, mais coisa menos coisa, mas nao faço ideia de que slow :D falas...
no entanto, aos 17 ainda n tinha resolvido a minha fase doors, mas sou menina e era apaixonada pelo JM, outros 500...
Abç
De Nuno Miguel Guedes a 11 de Abril de 2011 às 15:03
Olá Isa!
Não interessa os nomes ou as músicas, de facto: é aquele tempo, aquelas dúvidas, aqueles medos - e aqueles prazeres...:) E nisso todos passámos por lá.

Um beijinho e obrigado.
De Sílvia a 11 de Abril de 2011 às 01:49
Essa música sobreviveu e alguns consideráveis anos depois continuava a patrocinar encontros íntimos em pistas de dança. Um clássico no mundo do slow portanto! bom encontrá-la aqui.
De Nuno Miguel Guedes a 11 de Abril de 2011 às 15:03
Obrigado, Sílvia. Tal como é bom reencontrá-la a si.
De José, o Alfredo a 11 de Abril de 2011 às 11:17
O diabo está, sem a mínima dúvida, nos detalhes. Associo as minhas experiências dessa ordem (o teu texto ajuda-me a chamar-lhes assim, e não 'traumas', à bruta) ao Wish You Were Here.
Tinha, se bem me recordo, a grande vantagem de uma introdução de uns 2 minutos antes de entrar a letra, que dava tempo quase suficiente para atingir os níveis de álcool necessários.
Por outro lado, os 26 minutos restantes eram mais que suficientes para se passar da euforia de ter conseguido emparelhar com uma qualquer inocente à constatação de não se ter nascido para passar uma parte tão grande da vida na companhia daquela inocente em particular...
Mas o pormenor da cola no whisky, por razões que pessoas com barbas e calças de bombazine devem explicar com facilidade, já se me tinha varrido. Obrigado pela memória.
De Nuno Miguel Guedes a 11 de Abril de 2011 às 15:06
É pá, também só tu para dançares slows do tamanho Jumbo. Aqueles três minutos eram para mim uma tortura, mas se a coisa corresse mal, um tipo voltava à escuridão de onde nunca deveria ter saído. Se corresse bem, esperava-se pelo próximo. Slows de mais de 4 minutos é como estar mal-disposto num barco: uma pessoa quer-se ir embora e não pode.
De na primeira pessoa do singular a 12 de Abril de 2011 às 15:18
O amargo dos slows era eu ficar sempre de fora! Até aos 16, suspirei, por este, pelo Phill Collins, e outros que tais...E de facto, o primeiro que me levou cheirava mesmo a whisky, muito whisky. Roberta Flack , seguido de Ban com Dias Atlânticos, ao som do Oceano Pacífico. Como me lembro, 21 anos depois? primeiro beijo, que ficou por ali e que se esgotou ao fim de umas horas. E porque 6 meses depois encontrava o amor da minha vida, amante de música, mas que não dança, por isso, os meus slows ficaram-se por aquela noite de Junho de 1990. E só mais de 10 anos passados é que ele pegou em mim para dançar, ao som de Lionel Richie, numa madrugada de semana, quando preparávamos o pequeno almoço, antes de ir trabalhar, ali, no meio da cozinha...
De Nuno Miguel Guedes a 12 de Abril de 2011 às 19:16
Um belo slow não precisa de tempo ou pretexto. Boa história, obrigado.
De Maria a 13 de Abril de 2011 às 07:45
Vim parar a este blog por acaso, e que acaso feliz. Foi bom recordar este "Classic" e todas as sensações que você descreve com tanto realismo. Passei por lá... embora do lado feminino... belos tempos... doces sensações.
De Nuno Miguel Guedes a 13 de Abril de 2011 às 12:02
Obrigado, Maria. E já que nos encontrou, regresse...
De Anónimo a 13 de Abril de 2011 às 12:44
foi super giro, foi como se de repente recuasse umas dezenas....de anos, foi como se estivesse novamente nesses bobs tempos, slows, whisky c cola e td o mais...espectacular
De Nuno Miguel Guedes a 13 de Abril de 2011 às 17:21
Muito obrigado.:))

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