Terça-feira, 5 de Abril de 2011

Convictos

Uma revista, por não ter vendido publicidade ou finalmente dar importância a quem merece, escreveu aqui sobre o rapaz. Fosse a modéstia uma das minhas inúmeras qualidades, e iniciaria este importante testemunho com uma dissertação sobre o terrível momento civilizacional que atravessamos que faz com que um tipo como eu seja assunto. Achei melhor não. Acreditem: eu mereço atenção. Como tenho um javali ao lume e o Futre está a falar na televisão não tenho tempo para explicar porquê. Mais, sabendo que nunca digo mentiras, fica o assunto encerrado.   

 

Assim sendo, fez o senhor jornalista muito bem. Apesar de terem sido só aí uns três mil caracteres, manifestamente pouco para o tanto que podia ser dito, o retrato é bastante fiel. Sobretudo, a parte onde exalta a minha inteligência, a minha versatilidade, a minha vastíssima cultura e as minhas, diz ele, ideias liberais .

 

Claramente entusiasmado com todas as minhas qualidades escreve que sou ateu convicto. Percebo. O senhor quis ser simpático. A convicção está na moda. Fica bem. As convicções propriamente ditas não interessam muito, o que importa é o cidadão mostrar-se convicto acerca de tudo e mais alguma coisa.

As minhas ideias políticas são indiscutíveis, a minha religião é a verdadeira, o verde é a mais bela das cores, o goraz é o mais saboroso dos peixes, o Chico é mentiroso.

Ser definitivamente afirmativo,  violentamente assertivo (também está na moda usar esta horrenda palavra) são qualidades acima de todas as outras.

 

Admito, as certezas absolutas devem ser um bom medicamento para estes tempos difíceis. Já chegam todas nossas incertezas. As tais coisas pequenitas, como saber se amanhã temos dinheiro para pagar o colégio das crianças ou sequer se vamos ter trabalho . Em épocas de bonança não deixamos de conviver mal com as nossas dúvidas, mas com a barriga cheia e o céu limpo ou pouco nublado podemo-nos dar ao luxo duma divagação, do diletantismo de pensar que se calhar não temos as certezas todas.

 

Eu agradeço o elogio de me terem chamado convicto de alguma coisa, mas este não mereço. Também não sei dizer se gostava de ter essa qualidade ou não. Infelizmente, nem disso tenho a certeza. Não sei se a minha permanente dúvida sobre o que está certo ou errado é boa ou má, se me ajuda a ser mais feliz ou a trazer alegria a quem me está mais próximo. E mesmo que ser profundamente convicto de alguma coisa me ajudasse, não sei se o conseguiria ser. 

Ia escrever que sou um gajo que não sabe a verdade nem tem grandes  convicções, mas nem disso tenho bem a certeza.

publicado por Pedro Marques Lopes às 02:57
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