Segunda-feira, 4 de Abril de 2011

declaração de amor e irs

Tenho pensado que o amor precisa de novas declarações.

Nestes tempos que dizem de materialismo, individualismo, crise moral e económica, estrangeirismos, acordos ortográficos e redes sociais, estranho que subsistam as mesmas juras e metáforas de séculos. A “princesa”  deveria ter dado lugar à secretária de estado; a sogra a quem tratamos por “mãe” a senior manager. O descomprometido “companheiro” poderia bem ser substituído por “colaborador próximo”. “O meu homem”, de que falam muitas senhoras por esse Portugal, seria mais expressivo como CEO. O amante, administrador não-executivo. O don juan, free-lancer. A puta, relações públicas.

Jurar amor eterno é retórica inútil em que ninguém há muito acredita. Por que não substituí-lo por um contrato a prazo? Diz o jovem arrebatado: quero contratar-te para a minha vida para os próximos cinco anos – que dizes? O coração pulsa-lhe nos ouvidos. As mãos suam de ansiedade e arrojo.

Poderíamos oferecer garantias de um ou dois anos em caso de amor com defeito. Preços de amigo nos jantares românticos, cartões de fidelização com descontos nos motéis. Caso jantes nove vezes comigo, o décimo é por conta da casa.

As relações sem compromisso são óbvios recibos verdes. As rupturas downsizing. A troca de um companheiro por outro reestruturação. A traição um crash. O reatar um reboot. O primeiro encontro é uma entrevista de emprego no amor. A promessa de que uma relação dure mais que um telemóvel um bom princípio.

Em vez de flores, talvez devêssemos oferecer aplicações, actualizações, upgrades, abonos de família, despesas de representação. Em vez de bilhetes, facturas, cartões da empresa, memorandos. Smileys em vez de sorrisos. Toques em vez de abraços. “Likes” em vez de longos telefonemas delicodoces noite fora.

Os cônjuges são partners. A mulher da minha vida um ambicioso projecto pessoal. Um filho um investimento de risco, mas um sinal de confiança aos mercados.

Não sei que nos podemos prometer depois de tantos divórcios, despedimentos, desilusões e descrenças. Dizer que farei de ti a mulher mais feliz do mundo é prometer qualquer coisa que depende mais da Fitch do que de mim e ambos sabemos disso. Prefiro perder a cabeça, a réstia de cinismo e prudência, e dizer assim, arrebatado, alto e bom som, para todo o mundo ouvir: quero pagar-te os impostos.

publicado por Alexandre Borges às 07:19
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3 comentários:
De wannabe a 4 de Abril de 2011 às 10:38
... uma deliciosa tradução!
welcome back!
De Brunhild a 4 de Abril de 2011 às 10:56
Like! :))
De Sílvia a 4 de Abril de 2011 às 14:07
Boa.
Três palavrinhas: criativo, inovador e generoso.
Desde que... não recíproco...

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