Domingo, 3 de Abril de 2011

Breve elogio e defesa de Paulo Futre

De repente um país torna-se num momento. Breves minutos, registados para a posteridade, resgatam Portugal da mansa raiva em que são vividos os dias, na época de todas as mentiras e todas as revoltas. Declarações mais ou menos delirantes, acompanhadas de sotaque hilário e histrionismo excessivo seduziram  os portugueses. As fantásticas power lines de Paulo Futre na conferencia de imprensa de um candidato à presidência do Sporting são recitadas de cor, embrulhadas nos cafés com os pastéis de nada («Calma sócio, não vê que estou concentradíssimo»), debitadas a todos os propósitos («Vai vir charters da China»). A operação aritmética 19+1 nunca mais irá ter o mesmo sentido em Portugal. Sucedem-se os videos, as paródias, as sequelas.

A verdade é que Paulo Futre, no seu modo peculiar e picaresco, fez mais  pela mobilização dos portugueses do que anos e anos de maus governos e injustiças sortidas. É nele que nos revemos quando o troçamos : porque apesar do óbvio delírio daquele homem , ele fala sem medo. Ele diz o que quer dizer, o que sinceramente acha que é o melhor. Pode ter uma lógica de Alice no País das Maravilhas, sim; mas contém uma dose de sinceridade e vontade que não consigo encontrar em mais nenhum orador ou figura publica nacional nesta altura.

Há algum tempo, tive o contraste desta atitude. Assisti a uma mesa-redonda com figuras académicas respeitáveis e respeitadas. Não irei dizer quem para não ferir sensibilidades. Mas serviu para constatar o que já sabia: os portugueses são pomposos. Chatos, ufanos, vaidosos. O primeiro orador, para um tema que, faz de conta, seria «A invenção da roda» começou a sua intervenção assim:«Quando eu tinha oito ou nove anos, na minha aldeia...». Seguiram-se vinte minutos de partilha de petites histoires provavelmente interessantes para contar em casa à lareira: para uma audiência que queria ouvir opiniões sobre a invenção da roda, foi só mais uma provação enfadonha. O mesmo para os outros intervenientes, que não resistiram a apelar à sua biografia para garantir que o publico soubesse quão brilhantes eram e como foi tão sensato da organização o convite que lhes foi feito para ali estarem.

Deste Portugal, estou farto. O cinzento português  de O'Neill tranformou-se no multicolorido das caudas de pavão artificiais que por aí debicam. Vivemos entre o folclore da revolta festivaleira e a arrogância de quem nada sabe e tudo quer ensinar.

Viva Paulo Futre. E no dia que for a votos, já tem o meu garantido.

 

publicado por Nuno Miguel Guedes às 20:23
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2 comentários:
De Sílvia a 4 de Abril de 2011 às 00:44
Reconheço ao seu comentário uma veracidade entristecedora. De facto, a honestidade a par de uma dúzia de palavras inadequadas, convocando o riso e a paródia nacionais, tem o condão de chamar o nosso olhar para a deprimente realidade que coloca em confronto o calculismo dos discursos destituídos de essência e a espontaneidade das declarações revestidas de sinceridade e substância mas pintadas a preto e branco. Assisti ao debate a que penso referir-se e a conclusão que me assolou no final resumiu-se a dois factos: primeiro, o facto de o evento se centrar de forma exagerada no tal brilhantismo que refere; e depois, o discurso inacessível e pouco objectivo dos intervenientes num debate que, face ao tema focado, se pretendia transversal.
De Anónimo a 17 de Abril de 2011 às 00:28
“Beirão”

Portugal é único no mundo
É uma pequeníssima nação
Irá manter-se em recessão
Esquece e bebe um Beirão

Ganha um Porsche amarelo
Nunca vi automóvel tão belo
Põe qualquer um no chinelo
Podes acelerar prego a fundo

Deixas a recessão a milhas
Esqueces este país sem alento
E passeias de cabelos ao vento

Vai por mim sócio que brilhas
O Porsche e o Beirão com gelo
Far-te-ão esquecer tanto camelo.

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