Domingo, 3 de Abril de 2011

Um funcionário descansado dum dia exemplar

É provável que nunca mais nos livremos do FMI. A previsão podia ter sido feita por um analista sénior da Fitch ou por aquele turco espertalhão que anteviu a crise, mas a verdade é que não é preciso ser-se um génio da economia ou trabalhar numa agência de rating para dizer coisas alarmistas com um carácter absoluto e permanente. Basta ser português e achar que o país não tem remédio. Aliás, basta ser português. Assim é que é.

 

Mas, da mesma maneira que o país precisa do FMI, também o FMI irá descobrir que não passa sem nós. O timing da chegada não podia ser mais oportuno. Exceptuando uns poucos dias de chuva que transformaram Abril no mês de águas mil (é uma pena não podermos patentear o nosso saber popular), aquilo que a equipa do FMI constatará é que Portugal é um sítio encantador, e não o pântano anunciado nos media. Estes senhores vão perceber rapidamente que Portugal não tem obrigatoriamente que ser a terra do funcionário cansado, tal como descrito por António Ramos Rosa. “Débito e crédito, débito e crédito”, a sua alma vai dançar com os números, enquanto a exibem desavergonhados. Pudera. A culpa não é deles.

 

A seguir vem um verso em que o funcionário é apanhado pelo chefe com “o olho lírico na gaiola do quintal em frente”, o que, como sabemos, não irá acontecer. Neste caso, o funcionário é também ele chefe e, se por acaso o seu olho lírico reparar na gaiola do quintal em frente, é porque se trata um organismo público a extinguir.

 

A esta malta, ninguém vai “debitar” nada na “conta de empregado”. Serão pois funcionários des”cansados dum dia exemplar / orgulhosos de terem cumprido o seu dever.” Ora, o que faz qualquer português que se julgue exemplar e merecedor do melhor que a vida tem para lhe dar? Geralmente, uma de duas coisas: vive uma vida pacatamente feliz, recheada de pequenos grandes prazeres ao dispor de qualquer indivíduo com uma maquia decente no fim de cada mês, ou abraça uma vida inteira de ressabiamento. Muitos portugueses optam por este último caminho, com elevado sucesso e reconhecimento entre os seus pares existenciais. Quanto ao funcionário do FMI, vai perguntar a si mesmo: o que é que um gajo faz nesta terra quando não se está a queixar? Esta pergunta será colocada a si mesmo porque nenhum português lhe dirigirá a palavra.

 

É aqui que as coisas se tornam preocupantes. Terminado o dia de trabalho, o funcionário descansado terá um mundo de possibilidades à sua disposição. Longe vão o inverno de Dublin ou a dieta de iogurte e queijo feta. Com o Ministério das Finanças localizado a 20 minutos do mar e do maior outlet da Europa, e uma infinitude de bons restaurantes, esplanadas charmosas e casas de diversão nocturna no intervalo que os separa, o funcionário descansado vai passar por dois estados de alma. O primeiro, próprio de quem está de passagem, é o deslumbramento. Tanto drama e afinal é este o melhor país da Europa. Depois vem a fase da aculturação, em que o funcionário, tal como Passos Coelho, percebe que o problema de Portugal afinal é muito maior do que aquilo que nos tinham dito. Isto é coisa para se prolongar por anos e anos. Aliás, o melhor mesmo é não marcar data de regresso. Vamos ver como corre. É trabalhar afincadamente e depois logo se vê.

 

Voltamos ao poema de Ramos Rosa e continua a fazer sentido. Já em vias de se naturalizar, o funcionário do FMI aprende agora a língua: “flor rapariga amigo menino / irmão beijo namorada / mãe estrela música”. São as “palavras cruzadas” do seu “sonho”, “palavras desenterradas” de uma nova vida, não mais prisão. Se a vida de um funcionário puder ser isto, “todas as noites do mundo numa noite só comprida”, ele nunca mais sai daqui. Nós também não, mas por razões diferentes.

publicado por Vasco Mendonça às 19:11
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