Sexta-feira, 1 de Abril de 2011

Download à Consciência

 

Roubar ou não roubar?, eis a questão que se põe ao consumir imoderado de canções. Tenho-me colocado a pergunta numa altura em que me quero actualizar em relação a novos sons e - destino da geração parva e pós-parva – falta-me o guito necessário para tal. Não sou santo nenhum na matéria: já saquei alguma discalhada e beneficiei do saquanço de outros. Mas de vez em quando surge a pergunta, tipo faixa escondida: é legítima esta coisa de sacar música independente da net ao desbarato?

 

Dizem-me – e dizem alguma bandas – que o prejuízo resolve-se com os concertos ao vivo e com as digressões. E eu penso nos grupos que não gostam de tocar ao vivo. Simplesmente porque não funcionam ao vivo. Ou porque o vocalista é patologicamente tímido. Pergunto-me se grupos que me formaram (tal e qual a Dona Dulce, minha professora da primária) como os Jesus And the Mary Chain e os My Bloody Valentine poderiam sobreviver neste mundo do “vamos percorrer todas as terrinhas para ganharmos o nosso”? Já para não falar do antigo catálogo da 4AD, coral sonoro tão belo e rico mas quase irreproduzível -  em condições e transcendência - em palco.

 

Depois ainda há quem use um argumento para aquietar as consciências: “Eu compro sempre os discos de que gosto”. Ou por outra: primeiro saco e depois escolho, de entre os álbuns que saquei, aqueles que vou comprar. E torço o nariz. Porque sei que ou se é um melómano irrecuperável e se gosta de ter o disco como objecto ou é muito fácil escorregar para a procrastinação do acto da compra. Quem é que, tendo o álbum dos Twin Shadow no computador, não cede à tentação de, nestes meses crisófilos,  adiar o momento de o mandar vir da Amazon ou de o ir buscar à loja? Além disso, para citar um amigo, “é tudo muito bom, muito bonito”, mas quem é que garante, com estes gestos, a sobrevivência das “mercearias musicais” (na boa terminologia da Radar)? O comércio tradicional da música é como o outro – só é preservado se houver quem resista à tentação de escolher sempre as grandes superfícies, sobretudo essa superfície gigante a céu aberto que é a internet.

 

E é assim. Um gajo não sai disto. Vai ao site da Pitchfork, topa as novidades e, antes de ceder à tentação de escrever no rectangulozito do Google “mega upload” seguido do grupo, estaciona o espírito na pergunta chata: saco ou não saco? Fico a dúvida. E vai-se deitar, enquanto deixa a consciência, a terrível consciência, numa espécie de eterno modo de download.

 

 

publicado por Nuno Costa Santos às 11:38
link do post | comentar

Autores

Pesquisar

Últimos posts

Contra nós temos os dias

Do desprezo pela história...

É urgente grandolar o cor...

Metafísica do Metro

A Revolução da Esperança

Autores do Condomínio

Hipocondria dos afectos

A família ama Duvall

Notícias do apocalipse

Meia idade comparado com ...

Arquivo

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

tags

todas as tags

Subscrever