Domingo, 27 de Março de 2011

O regresso

 

Não posso dizer que seja a primeira vez que o escreva mas nem por isso deixa de ser menos verdadeiro: gosto de regressos.

Este é apenas mais um, em que me passeio por palavras que aqui ficaram ao pó do que já fomos e escrevemos. E no entanto, tão familiares, tão à nossa espera. Foi a ideia do regressar que me convenceu a ocupar esta casa.

Na nossa vida há demasiadas partidas e despedidas e uma falta gritante de regressos. O amor, por exemplo, é sempre uma viagem que se inicia, que, por mais doce que seja, é assustadora. Ficamos sem rumo, não sabemos o que pode acontecer, que imensos icebergues podem estar emboscados e prontos a afundar o Titanic afectivo que tanto trabalho nos deu a construir. E às vezes acontece o naufrágio, e podem ser derivas até ao próximo resgate. Até ao próximo regresso a essa mesma partida que pouco antes juráramos nunca mais fazer.

Nunca compreendi bem o aforismo que diz que nunca devemos regressar aos lugares que nos fizeram felizes. Eu acho que sim, desde que se tenha o cuidado de não ambicionar vivê-los como antes. Esse é um regresso que pressupõe a coragem de lidarmos com o que fomos e com o que somos, mas nem por um minuto mata a felicidade que terá existido. Ela já é parte do nosso património tal como a dor que por vezes se pode seguir. Regressar devolve-nos sempre ao que somos, aqui e agora – nunca ao passado.

Depois, temos a sorte de muitos terem deixado pistas belíssimas, verdadeiras auto-ajudas que nos indicam caminhos e sugerem escolhas. Assim de repente, nesta escrita meia apressada, lembro-me da parábola do Filho Pródigo, que sugere o mais belo dos regressos – o regresso a Deus. Lembro-me de um livro que há tanto tempo me atravessou o coração: Para Sempre, de Vergílio Ferreira, constrói-se a partir de um regresso doloroso mas necessário. Outro célebre regresso foi provocado por uma trincadela num bolo. Resultado: A La Recherche Du Temps Perdu. Também é verdade que muitas vezes, «home is so sad», como garantiu Larkin. Mas é preciso regressar para compreender e voltar a partir.

Regresso ao que disse: não existem suficientes regressos na nossa vida. E sabemos que todos nós – todos – somos Ulisses, Penélope e Ítaca de nós mesmos, em simultâneo- Queremos sempre partir, queremos sempre esperar com zelo e amor, queremos ser o lugar mítico onde alguém irá regressar um dia. Eu continuo à espera, enquanto preparo a nova partida para um novo regresso.

 

 

 

publicado por Nuno Miguel Guedes às 17:03
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6 comentários:
De helena maria marques a 28 de Março de 2011 às 04:15
E' Bom voltar aos sítios que já conhecemos.
De Alves a 28 de Março de 2011 às 08:40
Belo Naco de Prosa
De Amigos do Concelho de Aviz a 28 de Março de 2011 às 10:04
A cultura deve ser preservada a todo o custo. Por isso peço desculpa por vir ocupar este espaço que é seu para, juntos, divulgarmos os IX JOGOS FLORAIS DE AVIS, cujo regulamento se encontra disponível em www.aca.com.sapo.pt em “destaques”.
Obrigado.
Fernando Máximo/Avis
De JAZMAL a 28 de Março de 2011 às 13:44
O regresso á infância e ao prazer da verdadeira descoberta deveria animar-nos em caminhar para um destino onde o quotidiano é feito de brincadeiras e sem preocupações.Todos os problemas que nos imergem num «mar de nadas» e que nos tolhem os sentidos numa espécie de cegueira contínua, eles são apenas o fruto amargo da nossa obstinação em neles continuar em vez de tentar emergir e assim tentar descortinar tudo aquilo que cobre estas águas estagnadas.
De Sílvia a 1 de Abril de 2011 às 23:57
Regressos, por vezes queridos, outras necessários apenas. Temidos ou ansiados ou dolorosos ou penosos ou alegres ou melancólicos ou esperançosos ou agitadores ou apaziguadores ou familiares ou distantes. Mas construtivos de alguma forma, sempre.
De Nuno Miguel Guedes a 2 de Abril de 2011 às 16:04
Agradeço a todos os simpáticos comentários. Este é um regresso que sabe bem.

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