Quinta-feira, 16 de Abril de 2009

A sinusite, apesar de crónica, acaba aqui.

Em nome de todos os que tornaram este espaço visitável, fascinante e ranhoso, um agradecimento aos dedicados frequentadores do estabelecimento. Sim, vemo-nos noutras unidades de saúde. Com ou sem receita médica. Até já.

 

A fechar, o texto com que se iniciou esta maleita.

 

 

Hoje não escrevo

 

Chega um dia de falta de assunto. Ou, mais propriamente, de falta de apetite para os milhares de assuntos.

 

Escrever é triste. Impede a conjugação de tantos outros verbos. Os dedos sobre o teclado, as letras se reunindo com maior ou menor velocidade, mas com igual indiferença pelo que vão dizendo, enquanto lá fora a vida estoura não só em bombas como também em dádivas de toda natureza, inclusive a simples claridade da hora, vedada a você, que está de olho na maquininha. O mundo deixa de ser realidade quente para se reduzir a marginália, purê de palavras, reflexos no espelho (infiel) do dicionário.

 

O que você perde em viver, escrevinhando sobre a vida. Não apenas o sol, mas tudo que ele ilumina. Tudo que se faz sem você, porque com você não é possível contar. Você esperando que os outros vivam para depois comentá-los com a maior cara-de-pau (“com isenção de largo espectro”, como diria a bula, se seus escritos fossem produtos medicinais). Selecionando os retalhos de vida dos outros, para objeto de sua divagação descompromissada. Sereno. Superior. Divino. Sim, como se fosse deus, rei proprietário do universo, que escolhe para o seu jantar de notícias um terremoto, uma revolução, um adultério grego - às vezes nem isso, porque no painel imenso você escolhe só um besouro em campanha para verrumar a madeira. Sim, senhor, que importância a sua: sentado aí, camisa aberta, sandálias, ar condicionado, cafezinho, dando sua opinião sobre a angústia, a revolta, o ridículo, a maluquice dos homens. Esquecido de que é um deles.

 

Ah, você participa com palavras? Sua escrita - por hipótese - transforma a cara das coisas, há capítulos da História devidos à sua maneira de ajuntar substantivos, adjetivos, verbos? Mas foram os outros, crédulos, sugestionáveis, que fizeram o acontecimento. Isso de escrever O Capital é uma coisa, derrubar as estruturas, na raça, é outra. E nem sequer você escreveu O Capital. Não é todos os dias que se mete uma idéia na cabeça do próximo, por via gramatical. E a regra situa no mesmo saco escrever e abster-se. Vazio, antes e depois da operação.

 

Claro, você aprovou as valentes ações dos outros, sem se dar ao incômodo de praticá-las. Desaprovou as ações nefandas, e dispensou-se de corrigir-lhe os efeitos. Assim é fácil manter a consciência limpa. Eu queria ver sua consciência faiscando de limpeza é na ação, que costuma sujar os dedos e mais alguma coisa. Ao passo que, em sua protegida pessoa, eles apenas se tisnam quando é hora de mudar a fita no carretel.

 

E então vem o tédio. De Senhor dos Assuntos, passar a espectador enfastiado de espetáculo. Tantos fatos simultâneos e entrechocantes, o absurdo promovido a regra de jogo, excesso de vibração, dificuldade em abranger a cena com o simples par de olhos e uma fatigada atenção. Tudo se repete na linha do imprevisto, pois ao imprevisto sucede outro, num mecanismo de monotonia... explosiva. Na hora ingrata de escrever, como optar entre as variedades de insólito? E que dizer, que não seja invalidado pelo acontecimento de logo mais, ou de agora mesmo? Que sentir ou ruminar, se não nos concedem tempo para isso entre dois acontecimentos que desabam como meteoritos sobre a mesa? Nem sequer você pode lamentar-se pela incomodidade profissional. Não é redator de boletim político, não é comentarista internacional, colunista especializado, não precisa esgotar os temas, ver mais longe do que o comum, manter-se afiado como a boa peixeira pernambucana. Você é o marginal ameno, sem responsabilidade na instrução ou orientação do público, não há razão para aborrecer-se com os fatos e a leve obrigação de confeitá-los ou temperá-los à sua maneira. Que é isso, rapaz. Entretanto, aí está você, casmurro e indisposto para a tarefa de encher o papel de sinaizinhos pretos. Concluiu que não há assunto, quer dizer: que não há para você, porque ao assunto deve corresponder certo número de sinaizinhos, e você não sabe ir além disso, não corta de verdade a barriga da vida, não revolve os intestinos da vida, fica em sua cadeira, assuntando, assuntando...

 

Então hoje não tem crônica.

 

Carlos Drummond de Andrade

publicado por Nuno Costa Santos às 03:18
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22 comentários:
De Brunhild a 16 de Abril de 2009 às 09:38
Assim?! Sem aviso-prévio definido por lei? Para que possamos encontrar um genérico que substitua este?!

Lá diz a sabedoria popular, "uma desgraça nunca vem só"!


Resta-me desejar tudo de bom para todos.
Foi bom enquanto durou... :)
beijos para todos


[Digam-nos por que unidades de saúde vão andar... pretty please!...]
De Alguém a 16 de Abril de 2009 às 14:54
'Atão mas... 'atão mas como assim? Só adicionei o sinusite aos favoritos na semana passada! Bah.
De Blog do Alerta a 12 de Janeiro de 2010 às 11:15
E eu tambem
De andreia am a 16 de Abril de 2009 às 16:49
Olha deu a travadinha a todos ao mesmo tempo. Vão fazer falta. Já tenho saudades de vos ler. Até, então. bj

(Isso da falta de assunto não existe. Então o senhor Camus não diz, que basta um homem viver um dia para ter sobre o que escrever a vida toda?)

(É que vocês eram todos bons, mesmo bons. Andava há uns dias para vos perguntar se não seriam de Ermesinde.)

(Tirando as brincadeiras. Fico mesmo triste com esta notícia. Veio o Alexandre preparar a malta de mansinho para agora darmos com o fecho do estaminé.)

(Fiquem todos bem e que vos possamos ler noutras paragens.)

bjitos tristes de uma leitora assídua.



De Internet a 12 de Janeiro de 2010 às 11:27
Tens alguma coisa contra o pessoal de Ermesinde?
De van a 16 de Abril de 2009 às 18:17
que pena (pode-se dizer, ranhosos!?), a paróquia fica mais pobre. faz falta a boa crónica, franca e divertida.

um até, então.

De Maria das Mercês a 16 de Abril de 2009 às 18:39
Continuo a minha manif: não fecha! não fecha! não fecha!
Obrigada a todos pelos excelentes momentos que nos proporcionaram.
De escrivaninha a 16 de Abril de 2009 às 18:57
"Não é verdade, tanta pomba assassinada!"
Mas, então...não podemos fazer nada? Os leitores não têm os seus direitos? Isto não deveria ser uma democracia em que as pessoas públicas seriam obrigadas a servir o seu público? Não vos podemos por uma acção judicial por danos morais?...
É que eu não sei mesmo como é que vou passar sem vocês!
Dêem-nos ao menos uma esperança. Indiquem-nos onde poderemos continuar a consumir a qualidade dos vossos trabalhos!
De Isa a 16 de Abril de 2009 às 19:31
Vcs irritam-me com estas merdas, a sério que me enervam!
Ó PML, anda cá pôr ordem nisto pá.
Bjs,
Isa, a saudosa!
De Nuno Miguel Guedes a 16 de Abril de 2009 às 23:26
Acho que assim ainda voltamos para um encore. Pela minha parte, obrigado.
De Guigas a 17 de Abril de 2009 às 14:50
Vocês são uns snobs de merda . Quer dizer, vêm por aí, com textos porreiros, conquistam o pessoal e quando ficamos verdadeiramente agarrados, os meninos pura e simplesmente desaparecem... Faz-me lembrar aquelas conquistas da adolescência: enquanto se procedia à conquista andávamos todos entusiasmados mas ao primeiro sinal de amor correspondido dava-nos um ai qualquer e o amor passava quase a desdém e a um certo desprezo pelo outro desgraçado.
Espero que não desprezam o vosso público...
Mas acredito que estejam um pouco cansados.
Vão, mas voltem! OK?!
De Laura a 17 de Abril de 2009 às 22:57
Mas essa merda pega-se ou quê?

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