Terça-feira, 3 de Março de 2009

citando Alf, o extraterrestre: "I kill myself"

Chegados tão a propósito como um tipo vestido de palhaço Ronald McDonald a um funeral, aterraram, ultimamente, entre nós, os chamados temas fracturantes. A expressão, anteriormente só ouvida em conferências de imprensa de médicos de agremiações futebolísticas, designa, como sabemos, um cabaz de polémicas que, no fundo, se resume à trilogia: aborto, gays, eutanásia. O primeiro já foi desassombrado; os restantes atropelam-se, agora, na luta pela vaga a próxima discussão nacional, do cabaré ao convento, do blog à taberna.

 

Isto preocupa. Por duas razões: a primeira, como por aí se escreve, é que desvia a atenção dos problemas actuais; a segunda é que pode significar o fim do Bloco de Esquerda. Legalizados todos os temas fracturantes, o Bloco passa a ter tanta utilidade como um arrumador de carros no deserto.

 

Deixemos a questão gay, já aqui tão bem tratada pelo Pedro e pelo João. O que me perturba, hoje, é a outra.

 

Afinal, por que é que não deixam um tipo morrer sossegado? Dão-lhe rédea solta para decidir coisas bem piores e, depois, puxam-lhe o tapete. Um fulano é livre de escolher a paixão clubística, a profissão, voluntariar-se para a guerra, frequentar dietistas, morar na Rinchoa, ler até ao fim as crónicas de Vital Moreira, entrar em desfiles de Carnaval, incorporar tunas académicas, fazer férias na Costa, mas, quando chega a altura de acabar com tudo, não tem voto na matéria? Por amor de Deus! Até o deixam casar e ter filhos, mas não o deixam morrer? O que é que está errado nesta imagem?

 

Logo que um tipo fazia 18 anos, eu apresentava-lhe o papelinho com a pergunta: “Se um dia tiver o azar de ficar tão activo como um couve-flor, quero que me desliguem a máquina. Sim ou não?” E pimba. O tipo espetava-lhe com uma cruz. Se, algures, mudasse de ideias, ia à Loja do Cidadão e, enquanto esperava vez na Lisboagás, dirigia-se ao balcão da eutanásia e dizia: “olhe, afinal, acho que já não quero morrer”.

 

Estava feito. Pode ser que, um dia, seja assim. E que a lista de actividades proibidas a gente maior e vacinada mude para ítems traumáticos como: ligar a televisão antes das oito da noite; estar no Messenger mais que sete minutos por trimestre; achar o Manuel Cajuda um pão; fazer marquises; agitar bandeirinhas de partidos sem ter sido regiamente pago para executar essa função; trautear canções da Mafalda Veiga e/ou dos últimos 20 discos do Luís Represas em público.

 

A ver vamos. À atenção da agenda do Bloco.

publicado por Alexandre Borges às 14:38
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1 comentário:
De jotabil a 3 de Março de 2009 às 21:24
Caro

O mais importante da discussão da eutanásia é conhecer o fim que se pretende atingir, num ambiente mercantilista.
Tempos haverá que todos entenderão legítimo , definir uma idade para a inspecção. Ou seja ...ao atingires 75 anos....só poderás continuar a viver se para isso não fores muito caro de manter , sanitariamente......senão o melhor é decidires morrer voluntariamente coagido.......é isso que se prepara no horizonte para as massas ignaras.....claro que a coberto dos "direitos e liberdades do homem"
O melhor será sentares-te à beira do caminho a pensar como Sócrates proclamava.

Um amigo

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