Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009

O vício da pátria

Tem-se falado muito de Pacheco Pereira. Do facto de perseguir como “grande inimigo” o “engraçadismo”, de – por coincidência – não revelar uma ponta de sentido de humor, de ser ressentido e moralista que nem um diácono de província, de constituir um corpo cada vez mais estranho no seu partido (como em qualquer outro partido), de, nos últimos tempos,  registar opiniões inacreditáveis sob o ponto de vista ético, de possuir uma agenda pessoal e de vingançazinhas sob a capa do “intelectual” impoluto. Acho que, genericamente, as pessoas têm razão. Mas também acho outra coisa: que as pessoas deviam deixar o vício do Pacheco Pereira. É um vício que só as prejudica, que só nos prejudica, que só traz problemas a nós próprios e às nossas famílias. Deixemos o Pacheco Pereira aos traficantes.


Sim, Portugal está viciado em Pacheco Pereira. E devia tentar curar-se. Ou por outra: o problema não está propriamente no Pacheco, que opina o que quer, quando quer, no lugarejo que quer. O problema está em quem o consome, em doses imoderadas. Em quem lhe atribui uma relevância desmesurada – uma importância que, de facto, não terá. Pacheco Pereira é apenas um opinador da pátria – dos mais relevantes, mais apenas um opinador da pátria. Não deve ser a referência (positiva e negativa) de todos os grandes debates, sobretudo por aqui, na blogofúria. Isso é atribuir-lhe um peso que, de facto, não tem. Por mais neurónios que esconda na cachimónia.


Eu confesso: já fui viciado em Pacheco Pereira. Reservei ao personagem a atenção que se reserva a quem pensa de forma informada e com rasgo. Mas, por algumas das razões anotadas acima, hoje já não visito a sua casa, o Abrupto. Já não suspendo o zapping para o ver e ouvir. Assisti a quase todos os “Terça à Noite”, com o Sousa Tavares e o António Barreto, recortei artigos vários, ofereci-lhe, como a deferência de quem oferece um poema ao mestre, uma das “Inventio”, revistelha de Faculdade que fiz com amigos, debati-o ao pequeno-almoço, ao almoço, ao jantar e no intervalo das sessões de psicoterapia. Mas deixei-me disso. Muito de vez em quando, passo os olhos por um ou outro artiguinho do “Público” e da “Sábado” se o tema me interessa e se há um parágrafo que salta à vista. Pouco mais.

 

Quando deixei de falar tanto do homem, lembro-me da pergunta inquietada da família: então, o que é se que se passa contigo, Nuno? Respondi sem exuberância mas com orgulho: consegui largar o vício, meus queridos. Já não sou viciado em Pacheco Pereira. Gostava de ajudar alguns amigos a sair disso também.

publicado por Nuno Costa Santos às 09:33
link do post | comentar
6 comentários:
De andreia am a 5 de Fevereiro de 2009 às 10:10
eh eh eh eh eh eh eh. Muito bom! Eu nunca entrei. Tenho medo das drogas pesadas. Beijinhos.
De f. a 6 de Fevereiro de 2009 às 00:10
genial. eu estou em desabituação.
De Helena Velho a 6 de Fevereiro de 2009 às 15:11
hum...e ressacou muitos dias?
De Nuno Costa Santos a 6 de Fevereiro de 2009 às 16:49
Eh eh, Andreia. Sorte a tua.

f, thanks, boa sorte com a recuperação, eh, eh.

Beijinhos

Helena Velho, sim, foi difícil. A droga, no início, era boa. Por isso tive algumas recaídas.
De Carlos Narciso a 7 de Fevereiro de 2009 às 19:21
Bom texto. Muito engraçado. Revi-me na situação, embora no meu caso a adicção ter sido ligeira.
De Jaime Roriz a 8 de Fevereiro de 2009 às 11:36
Estou como a Andreia ... tenho muito medo das drogas e nunca experimentei ... mas ... não acha melhor mudar de país? olhe as recaídas!

Comentar post

Autores

Pesquisar

Últimos posts

Contra nós temos os dias

Do desprezo pela história...

É urgente grandolar o cor...

Metafísica do Metro

A Revolução da Esperança

Autores do Condomínio

Hipocondria dos afectos

A família ama Duvall

Notícias do apocalipse

Meia idade comparado com ...

Arquivo

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

tags

todas as tags

Subscrever