Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009

os meus problemas com o boletim meteorológico

Há quem não suporte jornalistas, quem ache os advogados uma profissão do demo, quem embirre com manequins, quem esteja farto de engenheiros, mecânicos, canalizadores, técnicos da TV Cabo, fiscais das finanças – eu tenho um problema com meteorologistas.

 

Além do grande Anthímio de Azevedo e duma senhora de voz frágil que de vez em quando aparece a explicar temporais, alguém, alguma vez, pôs a vista em cima dum meteorologista? Há alguém que tenha namorado com um meteorologista, mantido um affair escaldante com um meteorologista, chocado num cruzamento com um meteorologista, avistado um meteorologista, certa vez, na reunião de condomínio? Não. Nunca. É sabido: os meteorologistas não existem. Se existissem, a previsão do estado do tempo não era igual em todo o lado: da CNN ao Jornal do Fundão, da Rádio Orbital ao boletim interparoquial de Alvaiázere. Haveria divergências, polémica, fracturas. Mas não há.

 

Resulta disto que há anos que desconfio do seguinte: há um senhor, algures no fim do mundo, que redige, de improviso e inspiração, a previsão para o dia de amanhã – quiçá o mesmo que escreve os pensamentos dos pacotinhos de açúcar duma certa marca de café – e, depois, reencaminha-a para os jornais de todo mundo a troco duma assinatura vitalícia da revista Ponto Cruz. Notem: até os horóscopos têm assinatura. Estudos e sondagens têm sempre universidades e empresas por detrás. O tempo não. O tempo é o tempo. Na televisão, na rádio, na imprensa escrita, nos telemóveis, nos ecrãs gigantes das avenidas. E nunca vem assinado por ninguém – um pouco como aquelas reportagens do “Toda A Verdade”.

 

E o pior não é isso. O pior é a falta de rigor. Dizem que vai chover até quinta, mas chove até domingo; que, amanhã, faz sol todo o dia, mas chuvisca à tardinha; que as temperaturas vão oscilar algures entre 14 graus centígrados diferentes e, mesmo assim, às vezes, enganam-se. No Verão, dizem que vai fazer sol e calor; no Inverno, que é bem capaz de vir o frio e a chuva. Enfim, intuições tão surpreendentes como pressentir que, amanhã, vai haver nascimentos e mortes, noite e dia, carros a passar na estrada e galas especiais apresentadas pela Júlia Pinheiro e pelo Manuel Luís Goucha.

 

Quando algo de verdadeiramente diferente acontece, o boletim meteorológico nunca é capaz de o antecipar. Um tsunami, um furacão, umas cheias. E porquê? Porque o senhor estava entretido a tricotar um bonito naperon de acordo com o modelo exibido na página 12 da Ponto Cruz deste mês e não deu por nada.

 

Por fim, dá-se esse facto extraordinário de ninguém cobrar as falhas. Sempre que um banco dá bronca, o Vítor Constâncio apanha porque falhou na supervisão, mas o meteorologista passa sempre incólume. Entre as gotas da chuva.

 

Aqui, há marosca. Ninguém me tira da cabeça. E o Charles Smith está metido nela.

publicado por Alexandre Borges às 00:01
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7 comentários:
De alex a 3 de Fevereiro de 2009 às 01:52
lindo. não resisti a linkar.
De Alexandre Borges a 3 de Fevereiro de 2009 às 12:18
obrigado, alex. A propósito, tens um nome bonito. Forte. :) Abraço!
De brunhild a 3 de Fevereiro de 2009 às 09:53
ahahahahah

Estou contigo, Alexandre!

Achas que ele terá algum parentesco com o Pai Natal? É que enquanto lia a tua crónica, consegui visualizá-los: cada um na sua cadeira de baloiço, ao pé de uma grande lareira. Um a ler o jornal. O outro, às voltas com o belo do naperon...

Welcome back! ;)
De Alexandre Borges a 3 de Fevereiro de 2009 às 12:26
É muito possível, brunhild. Dois irmãos velhinhos malucos: um enfia-se em chaminés e distribui presentes; o outro diz que vê anti-ciclones e que sabe o que vai acontecer amanhã. Obrigado.
De escrivaninha a 3 de Fevereiro de 2009 às 15:39
Que bom tê-lo de volta!
Na minha mente quando criança o Anthímio de Azevedo era o S. Pedro, pois detinha as chaves do céu. Agora deve ser um condomínio e o pessoal entra com código; fica essa grande interrogação sobre "os homens do tempo"...
(Acho que o tio Anthímio merecia uma biografia: já fiz uma sondagem e toda a gente fixou essa personagem!)
De Alexandre Borges a 3 de Fevereiro de 2009 às 20:21
Para já, vamos pensar pelo menos numas t-shirts: "Anthímio in da house!". Obrigado, escrivaninha.
De daniel a 10 de Fevereiro de 2009 às 13:24
Mas também te digo uma coisa: não há melhor profissão para se ter um "affair escaldante" que metereologistas.

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