Terça-feira, 6 de Janeiro de 2009

retrato do jovem enquanto artista

Compreendo os pais que não deixam os filhos ir para artistas. Eu, se me deixasse ter filhos, não deixava.

 

É muito bonito defender o contrário. Dizer que o jovem deve decidir o que quer ser, estimular a sua criatividade, a sua liberdade, coiso e tal. Mas é preciso explicar duas coisas: uma, que a arte não é uma licenciatura; duas, que música, por exemplo, significa Beethoven e significa Mafalda Veiga.

 

Esse é o perigo. Não temo que o adolescente cresça, pinte paredes, ninguém o compreenda e acabe a dormir nas arcadas do ministério das Finanças. Ao menos, é central e, agora, até já tem metro. O que todos temos a temer é que nasça dali outro André Sardet, outros Il Divo, outra Nucha.

 

Evidentemente, há bons e maus profissionais em todo o lado. Se o puto quiser ser advogado, médico, professor, engenheiro, técnico oficial de contas, e for mau, pode e deve sempre ser despedido. E aí há-de perceber que se enganou na escolha. Que falhou o ramo. Não é dotado, ao contrário do que pensava.

 

Mas o artista não. O artista não é despedido, não é despromovido, não tem rankings nem sistemas de avaliação. Não se lhe fazem auditorias. Ele pode ter à porta o Coro de Santo Amaro de Oeiras a cantar-lhe que é uma merda que ele não acredita. Fica ainda mais forte. Acha-se um incompreendido pelo seu tempo, como Pessoa, como Van Gogh. E, então, insiste. E insiste e insiste e insiste e, quando damos por ela, o miúdo rosado que tínhamos na foto da sala a fazer a primeira comunhão, é outro António Manuel Ribeiro, outro João Soares da música, outro Manuel Monteiro do clarinete.

 

O jovem não decide ser artista. Ele ou é ou não é. E isso, escolha ele o que escolher, decida a família o que quiser, há-de sempre rebentar nele como uma borbulha, como um problema crónico de pele. Mesmo depois de 20 anos na administração pública, 15 a viver em Santo António dos Cavaleiros e muitos workshops de cerâmica e cozinha. Permanece. Está lá como o problema congénito, o trambolhão da infância, o primeiro beijo antes dos 32 anos.

 

Não vale a pena arranjar grandes discussões lá em casa. É perguntar se ele quer mesmo acabar nos escaparates, entalado entre a nova versão dos “Jardins Proibidos”, agora com o Paulo Gonzo a cantar ao vivo na banheira, e as melhores conversas de Alexandra Solnado, agora com Jorge Jesus.

publicado por Alexandre Borges às 16:01
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4 comentários:
De Isa a 6 de Janeiro de 2009 às 20:18
Ai Alexandre, que maravilha :-)
espero que continues a arrancar-me boas gargalhadas em 2009, tal como tens feito e fizeste neste post.
Valeu! E bom ano.
Bjs
De andreia a 6 de Janeiro de 2009 às 21:34
ah ah ah ah ah ah ah. Muito bom! E eu que gosto tanto de adendas e de P.S. e de falar, falar, falar qual galinácea, se me tivesse ficado pelo ah ah ah ah ah tinha dito tudo. Grande rentré.
De Alexandre Borges a 7 de Janeiro de 2009 às 00:08
obrigado, Isa e Andreia. Boa rentrée para vocês também (desejavelmente sem aquelas cançonetas típicas das passagens de ano...).
De Lídia Bulcão a 11 de Janeiro de 2009 às 00:47
Hmm... Depois das gargalhadas iniciais, comecei a imaginar o meu filhote daqui a dez anos. E perdi a vontade de rir... Achas que resulta se eu esconder já os cds e queimar a biblioteca cá de casa? Na pior das hipóteses, nunca poderá dizer que foi a mãe que o incentivou...

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