Terça-feira, 30 de Dezembro de 2008

crónica de pantufas (em dias de chuva)

Às vezes, o escriba cansa-se de escrever coisas para sempre. Chega de querer ser recordado, amado, forjar frases para facilitar a vida a quem nos queira citar no dia em que morramos. Basta de monólogos para arrebatar plateias por esse mundo fora, fazer-se ao mosh de comentários, passear o glamour geek por hordas de louras histéricas por intelectuais escanzelados. Deixem lá o Philip Roth ser o melhor sozinho. Aqui e ali, o cronista tem direito a vir à porta de pantufas, com a roupa de andar por casa, com a escrita despenteada. Só para a família e vizinhos.

 

Começando a organizar pensamentos estremunhados: ia dizer que é fim de ano, mas não. É o fundo do ano. O mundo anda a baloiçar no lado de baixo dos dias, com demasiadas horas nocturnas; chuva e vento e frio; resignações e projectos a rodar na chávena de chá à espera de dia melhor para começar a pôr em prática.

 

Tudo em volta – das notícias aos telefonemas pessoais – confirma uma segunda ideia tosca: o Verão não é a silly season. Ao menos, há tempo para ler. O dueto Natal-Réveillon é que é the real thing. Programação imbecil, jornais despidos, lojas e serviços fechados, trânsito somente ao redor dos shoppings, lado nenhum para onde fugir, conversas monotemáticas, espirais de rituais repetidos por milhões de pessoas como tropas de zombies aparentemente bem intencionados.

 

Terceira questão, posta na mesa, ao lado da taça dos amendoins: raisparta os balanços do ano. É de mim ou aquilo não faz sentido? Não sabemos fazer história sobre corpos ainda quentes. Há rastos perdidos em Janeiro e nomes da semana passada. Elegem-se discos que ninguém voltará a ouvir e deixam-se de fora filmes que, vai na volta, permanecerão. Organizam-se tops de factos e figuras como se Barack Obama tivesse saltado ligeiramente mais que Nelson Évora ou Josef Fritzl perdido por poucos para Cristiano Ronaldo na corrida para melhor do mundo da France Football.

 

Outras coisas dispersas: a) o Pedro e o João andam a escrever cada vez melhor. A última crónica do João é a arma fumegante que incrimina um equilibrista de pensamento tão bom que até irrita; b) Procuro workshops subordinados ao tema: como acender uma lareira sem recurso a gasolina (módulo 1); como mantê-la acesa e vibrante depois de virar costas  (módulo 2). E c) o que me lixa é que, a seguir, ainda vem o carnaval.

publicado por Alexandre Borges às 00:49
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8 comentários:
De andreia a 30 de Dezembro de 2008 às 17:20
Vá é de graça por enquanto:

Módulo 1: Há umas pastilhas que cheiram a "petróil" eficazes no acto de acender a lareira. Dão logo uma grande labareda que facilmente propaga à lenha (previamente colocada na lareira).

Módulo 2: Deverá então possuir um fole, acessório que fica geralmente num apoio com espetos e coisas assim que as lareiras precisam e dar umas "bufadelas" de vez em quando, uma vez que o oxigénio promove a combustão.

Volta e meia voltar a colocar lenha. Volta e meia mais bufadelas.

E é isto.

P.S. O Alexandre também escreve muito bem quanto a mim.
De Alexandre Borges a 31 de Dezembro de 2008 às 02:12
Caríssima Andreia, já tenho as pastilhas. Vou tratar do fole. Muito obrigado e um magnífico 2009, com lareiras, crónicas e demais prazeres.
De andreia a 31 de Dezembro de 2008 às 08:52
Como não ter um fole tendo uma lareira? eh eh eh. Obrigada pelos votos para 2009, aqui os retribuo. Um 2009 cheio de humor e boa escrita.
De escrivaninha a 30 de Dezembro de 2008 às 18:38
Aproveito para desejar a continuação da inspiração para a escrita no novo ano que aí vem. Claro que este é um voto de Boas Festas interesseiro, pois tem em vista aconchegar o meu ano de 2009 com excelentes momentos de leitura. Feliz 2009, Alexandre!
De Alexandre Borges a 31 de Dezembro de 2008 às 14:11
São, cara escrivaninha, os chamados 'interesses em comum'... Muito obrigado e um excelente 2009. Com muitos momentos verdadeiros e alguns de riso simples e parvo. Já não é mau.
De wannabe a 31 de Dezembro de 2008 às 16:03
estou contigo!! raisparta os balanços do ano... o único sentido é que o activo tem que ser igual ao passivo mais o capital proprio, isto numa versão tecnica. A versao mais comum, não passa de encerramentos para inventario, ou seja, contagem de existencias.
eu sei, n passa de um comentario parvo, talvez te cause um sorriso simples... :)

boa continuação e votos de uma lareira em chama...
De mariana a 1 de Janeiro de 2009 às 16:49
o mundo a baloiçar no lado de baixo dos dias...

a melhor frase do meu primeiro dia. obrigada alexandre.
agora vou ouvir o sérgio godinho "a noite passada, acordei com o teu beijo...descias o douro..."
vi o amanhecer do alto da serra do pilar. foi a minha primeira passagem de ano, tudo o resto era o início.
De Alexandre Borges a 5 de Janeiro de 2009 às 13:05
Muito obrigado, wannabe e Mariana. Um 2009 com muitos momentos aparentemente saídos da melhor literatura.

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