Sábado, 27 de Dezembro de 2008

Eu gosto é de ser bem alimentada

Passei um Natal agradável, obrigado. Reduzi a habitual quantidade de doçaria ingerida de 'absurdo' para um mais aceitável 'exagero irracional', disse muitas vezes 'Pois' e 'Sim, claro' quando me perguntaram se as minhas sobrinhas não estavam muito lindinhas, treinei um sorriso doce para o momento de receber prendas inanes e quando recebi prendas inanes sorri docemente e agradeci. E aborreci-me muito.

 

Para fugir ao tédio pus-me a ler o blog do Mexia, onde encontrei um post curioso.  Escreve o Pedro, a 22 deste mês, que uma moça disse a um amigo: "Gosto de ser bem fodida". O amigo ficou excitado, mas isso pouco importa: um homem excita-se até com o vento a soprar nos canaviais. O interessante está na interpretação do Pedro: "tirando o vocábulo, ela não disse nada do outro mundo. Toda a gente gosta de foder ou ser fodida, de preferência bem." O Pedro tem razão quando escreve que ela não disse nada do outro mundo tirando o palavrão - mas é o palavrão que faz toda a diferença, não a afirmação contida na frase. Eu explico.

 

Imaginemos que a senhora tinha tido: "Gosto que saibam fazer amor comigo" e posteriormente tinha procedido a uma longa e detalhada explicitação dos movimentos de anca, língua e dedos que o aspirante a amante teria de executar para a deixar feliz. Ainda seria uma afirmação de si enquanto ser desejante (tipa que fode) e também desejável (tipa fodível), mas a frase teria caído no esquecimento e o amigo do Mexia, em vez de ficar excitado, ter-se-ia entediado. Porque a frase teria sido expurgada do seu factor entesoante, que é o uso do calão. O calão serve para reconduzir ao pornográfico o que antes as mentes púdicas achavam ser pornográfico. Serve para tornar ainda mais afirmativa uma afirmação de si.

 

Claro que isto é tudo treta, porque qualquer ser minimamente adulto sabe que qualquer ser minimamente adulto e saudável gosta de foder e ser fodido, "de preferência bem", como o Pedro refere (não sei onde o descobriu, deve ter lido). Além disso, a frase é hoje repetida ad nauseum por qualquer fêmea aspirante a liberal e dona e senhora do seu nariz (também se fazem coisas interessantes com o nariz, e não estou a falar de drogas): toda  a santa cachopa já a disse pelo menos uma vez a um qualquer tenrinho deslumbrado com o potencial entesoante do calão. Ora isto é uma constatação do óbvio disfarçada de diferença, pelo que a proposição deixa de ser uma irreprimível afirmação de vontade para ser roleplaying, o que faz da mocinha uma poseur.

 

Se a cachopa tivesse dito: 'Gosto que ejaculem na minha cara enquanto trauteiam A Cavalgada das Valquírias' ou 'Aprecio sobremaneira que me assentem com cintos de couro no lombo enquanto me descrevem a vitória de Kasparov sobre Karpov em 1983 com aquela toma do peão pelo bispo à traição', isto seria notícia. Assim é apenas mais uma repetição sonsa da mesma história, com os mesmos capítulos e final conhecido, apenas uma nota de rodapé num banal tema de capa da revista Happy. 

 

O Pedro escreve "Hoje em dia uma mulher perdoa tudo a um homem, até violências e traições, mas não perdoa ser mal fodida", o que é um manifesto exagero: toda a gente pode perdoar uma certa dose de violência; uma certa dose de traição; e igualmente uma certa dose de má foda como se perdoa uma certa dose de más refeições ou de conversas aborrecidas ou de almoços de família neuróticos ou de roupa desarrumada. O que não se perdoa é a absolutização da violência, da traição ou da má foda.

 

Quando o Pedro acaba o post a exclamar "Abençoadas" às senhoras que gostam de ser bem fodidas mas não se importam de ser maltratadas ou traídas está apenas a descrever um imaginário feminino que lhe interessa para confirmar a sua imagem de si. Mas está a fazer um mau serviço às mulheres (como aliás ele certamente confirmará), porque está a descrevê-las como seres que procuram a autonomia unicamente pela foda - pior: pela foda que recebem e não pela que dão. E que por ela são capazes de se submeter a tudo, inclusive à violência - da mesma forma que antes o fariam (suponhamos) pela segurança.

 

E isto reduz a autonomia da mulher a uma caricatura. Porque raio a autonomia tem de passar pela foda, porque raio se "afirma" a foda? Antes a sexualidade não passava pelo prazer feminino? Tirando certas excepções (a corte japonesa no século XI parece exemplo demasiado rebuscado), não, não passava. Mas também é certo que antes eram as mulheres que cozinhavam; que passavam a ferro; e que se ocupavam da educação das criancinhas. E é tendo em conta todas essas anteriores manifestações da primeva submissão feminina, que rogo pelo dia em que ouça uma mulher a dizer: "Eu gosto é de ser bem alimentada", ou "Homem que me queira tem de me passar bem a ferro as saias plissadas". Isto seria uma afirmação de individualidade original. Até lá, é só folclore.

publicado por João Bonifácio às 18:11
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9 comentários:
De mariana a 27 de Dezembro de 2008 às 23:11
eu não tenciono ser alguém que cozinhe, passe a ferro ou me ocupe da educação das criancinhas.
no entanto não considero nenhuma dessas actividades como manifesto de submissão por parte da mulher.
o feminismo tornou-se quase absurdo a partir do momento em que as mulheres podem escolher o que querem fazer.
no entanto não é mentira que uma mulher continua a ter de se esforçar o dobro para conseguir o que um homem muitas vezes tem como dado adquirido, sendo ainda pior o facto de as mulheres lutarem entre si para alcançarem o que querem.

uma mulher proclamar-se como cabra emancipada é uma divertida experiência sociológica/zoológica, falando por experiência própria, há uma raça de homens que se sente atraído por este grito de guerra como abelhinhas pelo mel. (ou melhor dizendo mosquinhas pela merda)
na minha escusada e inútil análise da afirmação da rapariguinha concluo que:
poderá ter sido a afirmação meramente provocatória no sentido de sondar quantas vezes aquela mosca bate as asas;
poderá ter sido a afirmação demonstrativa de uma mulher infeliz sexualmente que procura incansavelmente o tão falado orgasmo que as amigas têm;
poderá ter sido a afirmação um desdém pelo ser masculino enquanto ser sexual, do género "eu-sou-tão-boa-foda-que-sei-que-vais-gostar-e-mai-nada".

creio que se continuasse até me ocorriam mais hipóteses mas estou de cócoras e não me apetece.

também creio que não acrescentei nada ou formulei discussão.

mas apraz-me dizer que fui muito bem alimentada neste natal e ainda me sinto empanturrada.

um bem haja ao senhor bonifácio que sempre escreve algo que me interesse.
De Ana Matos Pires a 28 de Dezembro de 2008 às 13:17
Olha, João, fia-te na virgem... folclore o caralho, amiguinho ;-)
De I a 31 de Dezembro de 2008 às 04:45
De onde eu venho diz-se foder, foda, fodam-me, fode-te, fode-me, fodei-vos, e foda-se com regularidade. As mulheres comem chispe e apreciam determinados atributos linguísticos dos trolhas: "Fazia-te uma cuequinha de cuspe" e não precisamos de saber mais nada. É difícil estar bem no sexo, até a falar dele.
De KLATUU O EMBUÇADO a 31 de Dezembro de 2008 às 08:28
Ainda bem que comem, afinal ainda há alguma tusa nos intectuais urbanos de fabrico urgente... nem que seja escrita.
De KLATUU O EMBUÇADO a 31 de Dezembro de 2008 às 08:30
«ejaculem na minha cara»... Que bem! - uma mulher de cultura, só pode...
De Brunhild a 8 de Janeiro de 2009 às 15:30
Alguém terá invocado o santo nome das valquírias em vão?!...
De menina limão a 10 de Janeiro de 2009 às 03:43
Bonifácio, Bonifácio...Se eu já tinha vontade de responder (em casa própria) ao post do Mexia, então agora - com o teu contributo - nem se fala...Isto vai ser tão divertido.
De ortlinde a 13 de Janeiro de 2009 às 18:00
é certo que tudo está como antes, com a diferença que agora também trabalham fora de casa! Depois as tais emancipadas ainda dizem ás amigas " o meu marido ajuda-me lá em casa". Traduzindo : "o meu marido faz-me o favor de aspirar porque a obrigação é minha".
De gaja boa a 23 de Janeiro de 2009 às 14:07
Eu gosto que o meu amor se levante mais cedo para preparar a comida dos miúdos, e me deixe dormir mais meia hora. Eu gosto que ele faça o jantar como eu mais gosto, e a seguir lave a louça. Eu detesto tarefas domésticas e tenho a sorte de alguém fazer a maioria delas e sobrar pouco para mim. E se ele não fosse bom em tudo o que faz (a começar pelo sexo), não seria suficientemente bom para mim.

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