Domingo, 21 de Dezembro de 2008

Perigo: felicidade

 

Não sei se vos acontece, estes dias em que quase acordamos felizes. Sem razão aparente, a paixão não é para aqui chamada, ou sequer a antecipação de algo ou alguém que desejamos muito. Assim, felizes à bruta, fora de moda e ao primeiro bater de coração, como se tivéssemos tomado um café duplo durante o sono e despertássemos já preparados para o mundo.
 
Não sei se já vos aconteceu, leitores, este sorriso estúpido enquanto se lava os dentes, esta vontade de sair e fazer coisas menores, pintar melhor o tecto da Capela Sistina, emendar umas frases menos conseguidas de Beckett, de caminho acabar com a fome e a pobreza no planeta, assim tipo miss universo com uma missão. E o motivo permanece obscuro, porque a vida é a mesma, as chatices são as mesmas, a imperfeição a mesmíssima, o absurdo de se morrer ainda maior.
 
E sai-se para a rua imune ao que é feio, e todas as mulheres são lindas e merecedoras do nosso amor, queremos mesmo a mulher que passa como no poema de Vinicius, «sete casamentos para escrever o Soneto da Fidelidade» como escreveu uma amiga, essa sim linda e talentosa. E não vemos a tristeza – é impossível, isso da tristeza – e o fado e a melancolia e os Joy Division são nestes dias peças de outro puzzle de um deus menor e chato como sei lá.
 
Estes dias raros para mim, em que nem sequer lembro que é Natal – como homem banal que sou, deprimo-me no Natal - , e sorrio francamente com as sugestões de presentes de kits crioestaminais («Já viste o que a tua mãe nos deu, amor? Um kit crioestaminal, já podemos tirar coisas do cordão do bebé») ou aquela ecosfera que é uma bola de vidro com «bactérias, camarões e algas» lá dentro, destinado a reproduzir um ecossistema, quem nunca pensou em ter uma coisa destas?
 
A felicidade ou a sua proximidade é território estranho para mim, leitor, e que chego por vezes a evitar. Mas quando surge assim, à socapa, misteriosa e avassaladora lembro-me do padre Brown de Chesterton que dizia que o mais incrível que há nos milagres é eles acontecerem. E eis-me a ouvir outra vez o Come Dance With Me! do Sinatra e a escrever pastiches literários mal-amanhados de stream of conscience , sabendo que amanhã tudo vai voltar a ser o que sempre foi e a implorar por favor por favor tirem-me daqui que posso vir a gostar.
publicado por Nuno Miguel Guedes às 17:29
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2 comentários:
De Ana Paula Afonso a 23 de Dezembro de 2008 às 12:09
Nuno? Fantástico! Gostei muuuuito desta crónica. Há dias assim, é verdade. Ou manhãs assim, porque se estou em trablaho de escritório, por alturas do almoço a sensação de pura euforia, que me faz sentir rainha do universo e gira que se farta, já passou...
De Nuno Miguel Guedes a 23 de Dezembro de 2008 às 12:38
Obrigado, minha amiga. É mesmo isso: não acredito na felicidade, pero que la hay... Beijos grandes!

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