Quinta-feira, 18 de Dezembro de 2008

Bruta ternura

 


Tento desenvolver aqui no spa sinusítico um pensamento sublinhado recentemente pela dona Bina no bairro melancómico - onde, para quem não sabe, habito num T-2 com vista para o Lidl. A catedrática da junta arriscou um pensamento definitivo: “Não se devem usar pontos de exclamação em público mas devem usar-se muitos em privado”. Fiquei a pensar. Mas o que é que a senhora quis dizer com isto? É um sentimento de pudor que a anima? Um prurido, uma mania, uma panca associada à medicação?  Pensei, reflecti, consultei a wikipédia, troquei dois dedos de conversa com o ucraniano que me pede um pacote de leite magro todas as semanas (não dou porque sou má pessoa) e cheguei à conclusão que, de facto, a senhora tem razão. Tem, tem.


Um ponto de exclamação mal colocado numa frase é uma deselegância indesculpável. Funciona como uma espécie de arroto verbal. O texto até pode estar “bem escrito” (ah, toda a vacuidade do mundo numa expressão barata), o artista até pode ser um bom artista, essas coisas todas, mas se coloca um ponto de exclamação onde não deve ser colocado estraga tudo (tudinho mesmo). Numa sala de decoração impecável é o dalmata de louça. O ponto de exclamação tem o efeito de uma bomba terrorista. A festa pode  estar a correr bem, com um ambiente agradavelzito (apesar da música tenuemente new age), mas escusado era alguém ter feito rebentar o quarteirão todo com um explosivo colocado na marquise. É isso o ponto de exclamação.

 

Há muito boa gente que acha que deve terminar uma frase com um ponto de exclamação. Acontece normalmente naquelas crónicas mais indignadas e furiosas. O tom vai em crescendo de parágrafo em parágrafo, o escriba entusiasma-se, qual Jirinovsky do verbo fácil, e, pimba, termina o escrito não com um, não com dois, mas com três pontos de exclamação. Assim: !!!. Do género “toma lá que já almoçaste”. Convém, se calhar, recordar o óbvio: não é ponto de exclamação que incendeia a frase de fulgor e força. A frase, em si, é que deve ser musculada.

Pelo contrário, na vidinha privada de cada um (SMS's, emails, bilhetinhos, cada vez mais urgentes à papelada dos dias) faz sentido, parece-me, usar a bomba. A bomba afectiva neste caso. É como dar um pancadão nas costas de um companheiro de pândegas e regabofes – daqueles que fazem curvar a cabeça da vítima até ao excremento do pitbull e rir todo o grupelho da rua. Reforça a cúmplicidade. Com os amigos não devemos ser elegantezinhos. Devemos ser generosos, patéticos e ternurentos. O "grande abraço" é o ponto de exclamação dos telefonemas entre amigos. Quando no final de um telefonema entre pessoas próximas alguém responde a um "grande abraço" com um "adeus, até amanhã" isso é motivo suficiente para ofender quem está do outro lado. É bom que assim seja. Há que recuperar a "ofensa" e as "florzinhas de estufa". Fazem falta a este ambiente climatizado de repartição nórdica. 

 

Um ponto de exclamação em cada esquina - lugares onde se cruzam os amigos e os companheiraços. É disso que este país anda a precisar.

publicado por Nuno Costa Santos às 11:15
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2 comentários:
De Atento a 18 de Dezembro de 2008 às 16:59
:) Pronto. Está desvendada a causa de tanta competência…
De andreia moreira a 18 de Dezembro de 2008 às 17:25
Eh pá. Usaste reticências no fim do comentário. Oh Nuno diz-lhe lá das reticências também. Embora num comentário talvez não faça mal, uma vez que se insere num domínio quase privado.

Nota: brincadeirinha para não levar a sério.

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