Terça-feira, 16 de Dezembro de 2008

Um copo?

Não sou um rapaz muito fácil de levantar da minha rica cadeirinha e não é só pelo pequeno detalhe de ter de levantar 100 e tal quilos  apenas com a força da mente. Está muito frio ou muito calor, o livrinho do Harold Robbins está “quentinho” – está sempre, mas enfim -,  a última série do Niptuck, o disco do Mikael Carreira que merece sempre uma audição suplementar, um dos meus filhos está constipado (esta é muito utilizada, confesso), tenho o programa do Rui Santos gravado, o belo do javali ao lume. Sou um verdadeiro especialista da desculpa, aliás estou para as desculpas como a Argentina Santos está para o fado, nas palavras do inefável Carlos do Carmo.  Até nem sou um cidadão muito dada ao remanso do lar, sou é um incurável preguiçoso.  É também por isso que sou sempre o último a sair das festas ou dos restaurantes: se se está bem porque raio é que me hei-de mexer?
Mas quem me conhece sabe qual é a palavra mágica para me fazer sair da minha muito amada morrinha.

 

Um cidadão telefona e desafia-me para servir de alvo a uma horde de gregos ou ir ver um jogo de curling ou até – heresia das heresias – ver um jogo do Benfica (qualquer semelhança de uma partida de curling com um jogo do Benfica não é mera coincidência). Enquanto estou ainda gago com a simples audição de tamanhos disparates, o cavalheiro interrompe e diz: “E depois vamos beber um copo”.  Pronto. O animal disse a palavra mágica. Uma espécie de “tatanka” para o cavalinho de Kevin Costner. Ainda ele vai a meio da palavra “copo”, já a minha incomensurável força mental está a levantar o meu delicado corpinho.

 

O mais estranho desta minha reacção pavloviana é que eu só bebo porcarias, cá por causa de um acordo de concertação corporal que assinei com um sindicato de órgãos armados em Carvalhos da Silva da saúde: aguinha da merda das pedras e cházinhos da puta que os pariu.
Ainda pensei, por uns tempos, que esta minha incontrolável vontade de sair para beber um copo estivesse relacionada com a minha anterior actividade de secador de adegas militante. Que me satisfaria, pelo menos em parte, a perspectiva de beber um riquíssimo whiskizinho novo ou um vodka saído do congelador, mesmo sabendo que depois me teria de bastar com um chá de cidreira.

 

Não nego que deve haver alguns pedacinhos da minha alma que me empurram porta fora, na secreta esperança de saírem da tristeza com que vão vivendo e que eu lhes dê um golinho de alegria e, francamente, não sei a força institucional desses infelizes bocadinhos de mim.
Mas, penso que a verdadeira razão é a boa e velha converseta que só um copo consegue embalar. Estou mais que convencido que há uma relação directa entre o movimento oscilante do braço e a boa conversa. É ou não verdade que quanto mais o braço sobe e desce melhor é o paleio?

 

Venha de lá esse copo.

publicado por Pedro Marques Lopes às 17:53
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2 comentários:
De mónica a 16 de Dezembro de 2008 às 18:50
Pedro,
Uma boa converseta nasce numa excelente companhia. O copo, esse, até pode estar vazio.
Experimente!
De Isa a 18 de Dezembro de 2008 às 12:57
venha de lá, então :-)

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