Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2008

Soufflé de peixe em concha de vieira

 

Se o leitor pesquisar o Google imagens com as palavras "conchas de vieira", o que obtém são imagens de conchas de um molusco lamelibrânquio acéfalo, a vieira. Mas se juntar "soufflé" a estas palavras, as imagens de vieiras são substituídas por fotogramas  de Jean Paul Belmondo, em À Bout de Souffle. Também uma camisa-de-forças cria condições para associações de ideias inesperadas. A imobilidade do corpo estimula o cérebro e os braços cruzados são a verdadeira pose de pensador - o que Rodin esculpiu foi um tipo com enxaquecas.

 

A psico-somatização é a manifestação involuntária da alma no corpo. Deixando de haver corpo, como sucede quando se está numa camisa-de-forças, o que o homem tenta é a manifestação voluntária do corpo na alma, isto é, o delírio controlado. Sei por vizinhos de quarto mais experientes que esta técnica permite induzir experiências extra-corpóreas em vida e um deles contou-me que já conseguiu ir comprar cigarros sem sair da cama - o problema depois foi trazer o corpo de volta. Tudo isto me soa algo inverosímil, devo confessar. O meu delírio ainda vai pouco além de tentar controlar as emoções com pensamentos, algo não muito diferente de retardar o orgasmo com imagens anti-climáticas - a propósito, obrigado, Professor Doutor Cavaco Silva. 

 

Esta nova rotina trouxe-me à lembrança a primeira vez que utilizei a técnica de evocar pensamentos para induzir estados de espírito. Era criança e havia já passado pelo trauma que é um jantar de soufflé de peixe em concha de vieira. A minha primeira reacção foi encharcar-me em Sugos de hortelã-pimenta para esquecer aquela refeição e só dias depois, perante outra refeição pouco apetecível, percebi que o soufflé de peixe era um magnífico modulador de sensações. Evocar o soufflé permitia-me relativizar uma má refeição. Nada era pior do que o soufflé de peixe em concha de vieira. Amadurecer resumiu-se a partir de então a encontrar o equivalente ao soufflé para outros domínios: o local de férias mais detestado, a peça de roupa que mais me custou vestir, o colega de escola mais irritante, a namorada menos estimulante. O que temos nesta legitimação empirista de um arquétipo negativo é uma dupla violação do platonismo, mas se a ideia da namorada-soufflé não me deu o grande amor da minha vida, permitiu-me viver com mais amor. 

 

Aqui na Suiça vou-me esforçando por aperfeiçoar esta técnica. Dizem-me que com dois traumas e um pensamento arrebatador se consegue gerar toda a gama de sensações - inclusive corpóreas - próprias da existência. Dizem-me que preciso apenas de encontrar os meus pensamentos primários - o vermelho, o azul e o amarelo das memórias - e que então basta aprender a doseá-los. Há nesta ideia de reduzir a memória a três pensamentos algo de extremamente perturbador. Nomeadamente porque um deles terá de ser, por  mero direito de primazia, o soufflé de peixe em concha de vieira. Goodbye, gravitas, goodbye...

 

 

publicado por Homem do pullover amarelo às 09:27
link do post | comentar

Autores

Pesquisar

Últimos posts

Contra nós temos os dias

Do desprezo pela história...

É urgente grandolar o cor...

Metafísica do Metro

A Revolução da Esperança

Autores do Condomínio

Hipocondria dos afectos

A família ama Duvall

Notícias do apocalipse

Meia idade comparado com ...

Arquivo

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

tags

todas as tags

Subscrever