Sábado, 13 de Dezembro de 2008

Clint

 

Nunca cheguei a tempo aos meus heróis. Fui fã de Nélson Piquet no momento em que surgiu Ayrton Senna, de Nené e de Fernando Gomes aquando da aparição de Paulo Futre – e na altura em que a rapaziada sonhava com o chicote de Indiana Jones, eu reparava na velocidade a que Bogart disparava frases afiadas para no fim ficar sem a miúda. Nunca cheguei a tempo aos meus heróis.

Os homens de quem aprendi a gostar não eram imbatíveis: tinham conhecido a vitória e depois tinham tido de aprender a viver com a derrota. Esse homens ganharam a minha atenção por uma razão: pareciam humanos.

De entre eles há um que quanto mais defeitos, incoerências e obras mal conseguidas lhe conheci ao longo dos anos, mais apreço lhe ganhei: Clint Eastwood. A Cinemateca teve a excelente ideia de fazer um ciclo com a obra de Clint e teve a igualmente excelente ideia de fazer um livro dedicado ao ciclo. Teve, porém, a infeliz ideia de me convidar para escrever um texto para o livro – o que aceitei de imediato para logo a seguir entrar em depressão: o que raio teria eu para dizer acerca de Eastwood?

É que Clint, para mim, não é uma questão de cinema. Esteja à frente ou atrás da câmara, Clint representa uma ideia de homem: mais ou menos fascista, mais ou menos beberrão, mais ou menos violento, mais ou menos mulherengo, mas com um simples mote: “É a minha vida. E tenho de vivê-la à minha maneira, ou então mais vale não viver” (paráfrase de uma fala do anti-herói de “Honky Tonk Man”). Isto, por mais seco que aquele homem pareça, é um ideal romântico: fazer o que se tem a fazer mesmo que isso implique perder.

Não creio que os homens que Eastwood representa e filma sejam, com algumas excepções, casmurros por indiferença ao outro; a casmurrice é um fechamento em si próprio, como se aqueles homens não aguentassem viver entre os outros, não conseguissem aceitar a pressão das convenções – o que automaticamente implica que Eastwood (na tela) seja mais frágil do que aparenta.

Acredito mesmo que há uma espécie de Homem-Eastwoodiano – alguém que não cria, apenas mantém. Por norma mantém-se apenas a si próprio, agarrando-se a uma solidão mediada e justificada ora por um ideal moral ora por um falso amoralismo (o que vem dar ao mesmo).

O que me agrada nas personagens a que Eastwood empresta o extraordinário rosto é o pudor, o pudor em falar de uma ferida que apenas lhe podemos adivinhar. Julgo que é daí que vem o conservadorismo das suas personagens: é uma forma de evitar a repetição dessas feridas – no cinema de Clint, toda a mudança é tida por potencialmente danificadora. Esse conservadorismo é uma forma de permanecer num lugar inatingível pela dor, um lugar onde o outro não tem acesso – tanto física como moralmente (daí que muitas vezes a moral de uma personagem de Eastwood nos pareça anacrónica ou ultrapassada).

Clint pode ser um realizador que sabe que lente usar e em que ângulo deve colocar a câmara, mas antes de mais é um rosto. O rosto de um homem que transporta uma falha e cujos labores e esforços se dirigem, essencialmente, para a tarefa de ocultar essa falha. Nem que o preço dessa ocultação seja o isolamento, a derrota ou a tragédia. Um homem só se torna anti-herói depois de ter visto o seu momento passar. Talvez por isso cheguei a tempo a Clint.

publicado por João Bonifácio às 09:34
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1 comentário:
De margarida a 17 de Dezembro de 2008 às 09:47
o pudor em falar de uma ferida que apenas lhe podemos adivinhar ... um excelente princípio...

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