Sexta-feira, 12 de Dezembro de 2008

A Casa da Sorte

Gosto do jogo da Lotaria. Aquelas histórias do EuroMilhões e do Totoloto não me convencem. Os prémios que saem nesses jogos parece que nos tornam em tipos com vontade de fazer viagens a Marte, de comprar ilhas ou ir para o Paris Dakar de limousine acompanhado de pedicure, massagista, disc jokey etc etc. Como tenho medo de voar, não gosto de ver só água á minha volta e não gosto de passeios no deserto armado em aventureiro, esses jogos não são para mim. Não fosse isto bastante, parece que se fica excêntrico... como os que conheço são na sua maioria esmagadora tontos infelizes, contento-me com a Sorte Grande. Isso sim, parece que além do dinheirito – em quantidades que me parecem razoáveis e não nos permitem entrar em loucuras disparatadas – o cidadão fica com sorte e grande ou melhor muita.
Basta ver os clientes deste jogo e dos outros. O candidato à taluda vai á sua loja habitual ou ao cauteleiro com prazer, pergunta a estes experts em sorte por que diabo na semana passada lhe voltou a vender cautelas sem prémio ao que ele responde que foi por pouco: “Tá a ver se em vez de este que eu lhe disse, tivesse ficado com o outro...”, fala-se de futebol, do tempo, provoca-se o vendedor dizendo que ele só vende jogo “branco”, ao que ele responde sempre que já “deu” centenas de prémios – aliás, se alguém se desse ao trabalho de fazer uma sondagem a todas as casas que vendem lotaria e cauteleiros, chegaria à conclusão que saem mais de 500 taludas por ano... -   e por fim, lá se mete um ou vários rectângulos ao bolso e nos despedimos com um “até para a semana”.  
Nada disto se passa com os jogadores dos outros jogos. Estes entram nas lojas com um ar desconfiado com um papel já preenchido, pagam e vão-se embora. Como prova da aposta levem um microscópico papelinho branco sem alma, com umas dezenas de números que não significam nada. Nem uma foto de um santinho, nem uma igreja, nada. Passam horas a desenvolver uns esquemas tontos que aumentam a sua probabilidade de ficarem “excêntricos” em 0,00000000000000001%, depois pôem-se numa bicha com ar desconfiado, com receio que os outros colegas de bicha lhe vejam os números que eles tão sabiamente escolheram e quando finalmente registam a sua aposta, fogem dali já com medo de serem reconhecidos como os próximos mega multimilionários. Chegada a sexta-feira ficam pespegados em frente á televisão à espera que a Marisa Cruz lhes dê a noticia de que já podem comprar os fatos de astronauta...
Eu tenho o meu número certo, o 8008, que ainda me há-de dar a sorte grande, mas enquanto não sai vou comprando semanalmente as minhas cautelinhas. Assim, à terça feira desço ao Rossio onde na Casa da Sorte entrego às mãos conhecedoras do Sr Augusto as cautelas respeitantes à “roda que andou” segunda feira. Mal me vê informa-me que o 8008 não deu nada e que tem a sensação que na próxima semana também nada vai dar – como sabe que já jogo naquele número há mais de 10 anos e que tenho medo que saia exactamente na semana em que não o comprei... - . No entanto, desta vez estou com imensa sorte já que sonhou na noite anterior com um número, que por incrível coincidência, está nesse momento na sua mão. Queixa-se pela enésima vez das arbitragens do seu Sporting e da maldita sinusite. Nesse momento chega o Sr Oliveira que me diz que tem ali com ele o segundo prémio e que faz questão de mo dar. Do fim do balcão ouve-se o Sr Alvaro que me informa que “jogo premiado é aqui deste lado” e que me guardou o 77 do Macarthy.
A Casa da Sorte do Rossio é um antigo estabelecimento especializado em Lotarias e outros jogos de apostas, repito, Lotarias e outros jogos, como se houvesse um verdadeiro jogo e os outros, tem toda a razão. É uma casa com patine,  que nos dá a sensação de termos entrado numa máquina do tempo que nos transportou para uma época diferente onde havia tempo para uma conversa, uma anedota, um comentário sobre as nossas maleitas, onde ainda se vê gente de chapéu a escolher os seus bilhetes de lotaria de uma resma de cautelas. Ouvem-se bizarras histórias de pessoas que entravam de costas, de outros que procuravam as cautelas com um rasgãozito, de outros ainda  que  exigiam que o empregado pisasse a cautela que queriam levar. É uma casa com História e com muitas, muitas histórias para contar.  

Saio sempre com uns cobres a menos mas, bem disposto e mais apaixonado pela cidade que me adoptou e que ainda tem estes paraísos escondidos no meio dela.

 

Publicada na revista atlântico

publicado por Pedro Marques Lopes às 19:01
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2 comentários:
De XXXX a 21 de Janeiro de 2009 às 15:39
ARRUINAS TE A CASA
De Anónimo a 24 de Janeiro de 2009 às 01:41
A noite ja vai longa...
Voltei aqui para lhe dar razao á cronica que aqui escreveu. Um dia destes quando lhe disse "Arruinas te a casa"no unico comentario que esta cronica ainda tem e espero que tenha muitas mais, é mesmo uma verdade o euromilhoes faz-nos sonhar muito alto esta semana arruinei mas 500€ em apostas é sem duvida um investimento sem fins lucrativos e saimos mesmo como refere atraz com menos uns bons cobres no bolso... é mesmo muito bom pensar dessa maneira para mim acabou o euromilhoes

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