Segunda-feira, 8 de Dezembro de 2008

ninguém amanha como o joão

em folguedo a um domingo, aquilo que durante muitas semanas passa por miragem sucedeu-me ontem. vai daí, compras. lacticínios, carrinhos em fúria, crianças e berreiro e iogurtes líquidos, bife quase celofanado, hortaliça pesada por balanças comandadas por um homem robótico e inexpressivo, tão rápido como um doutor octopus.  mas sem pio. a natureza do estabelecimento e da labuta não convida à doçura e prosápia, e eu, na qualidade de balconista profissional, entendo. muito manso era ele, para quem atura uma cornucópia de consumidores de beterraba e grelos de nabo, naquela que é aliás uma das melhores combinações heterossuxais que os hortofrutícolas nos oferecem.

 

diferente é o joão mendes, ali na zona mais à esquerda do hiper, se estivermos virados para o corredor das caixas. o joão é doce, disponível, embala o peixe em três sacos, o que evita o gotejar de salmoira pelos corredores fora, amanha o peixe em souplesse. joão mendes, de sua graça. encanta-me. e ainda por cima o seu mister permite-lhe utilizar uma parafernália de instrumentos que fazem inveja a um cronenberg dos pequeninos e que eu tanto estimo: as facas aguçadas, a tesoura de podar as barbatanas, o escamador em design starck rói-te de inveja, e as mangueiras com pistola, para mim o topo de gama, com a água a sair de jorro, consoante o nosso arbítrio. e depois os artefactos menores, as galochas e os ralos por onde se esvai o sangue da bicharada, que insistimos em comer olhos nos olhos no prato, sinal de que ainda não somos uma república dos douradinhos.

 

tudo em perfeição, mais demorado do que é habitual mas o povo que se acumula em frente às bancas pejadas de gelo nem pensa em refilar, há uma certa condescendência em relação ao bailado, à disponibilidade do joão que só nos entrega as douradas quando estão arranjadas e limpas, prontas a brilhar no baile de debitantes que é o pirex da classe média, segundos depois da grelha eléctrica, que remédio.

 

eu gosto mais de carne mas na bancada de frio que agasalha as salsichas, as febras, as espetadas de aves, ninguém amanha como o joão. e isso precisa de ficar registado, nem que seja durante os segundos que demora a ler um post de um gajo apatetado.

publicado por Pedro Vieira às 18:06
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