Segunda-feira, 8 de Dezembro de 2008

White russians

 

 

 

Esta semana saí-me bem no teste, um método de vanguarda que consiste em passar o serão com alguém que sofra da síndroma de Tourette. Estas criaturas, que ocupam uma ala inteira, são propensas ao impropério, frequentemente de raiz escatológica, bem como a outras obsessões compulsivas - expressão que sempre me pareceu uma notável figura de estilo e que pressupõe a existência de obsessões facultivas. Pois bem, da última vez não se verificou a escalada de asneiras  que era costume quando nos sentam à mesa e os médicos pensam que estou quase curado. Eu desconfio que foi porque esta pessoa me lembrou um tio meu muito dado à melancolia, o que me fez passar grande parte do serão calado e a tirar sons do copo com o dedo humedecido. Enfim, optei por não lhes corrigir a conclusão, pois propuseram-me um dia livre, sem camisa-de-forças e com direito a uma saída assistida. Foi assim que pude visitar o bar do Montreux Palace Hotel.
 
Esta minha magreza, que estou convencido ter sido determinante para o meu fracasso como crítico gastronómico, ainda me causa alguns problemas, embora já não as angústias juvenis que me roubaram tantos dias de praia. Pareceu-me por isso ofensivo terem destacado para me vigiar um enfermeiro que não deve chegar aos 65 kg, mas reprimi a tempo uma bela construção frásica - que juntava "diarreia" e "pináculo gótico" - com a especulação de que talvez o fulano seja versado em artes marciais. Deixei o pullover sobre a cadeira e vesti um fato de tweed - ainda não me sinto preparado. No caminho para o hotel, que fica mesmo do outro lado do sanatório, tentei meter conversa com o enfermeiro, mas apenas lhe saquei o nome: Jean-Pierre.
 
O bar do hotel, às 3 da tarde, é um daqueles lugares involuntariamente tristes que o homem construiu, mais triste do que um terminal de aeroporto ou uma paragem da Carris em dia de chuva. Só um cliente estava lá dentro mas pareciam muito atarefados os dois barmen, um branco e o outro preto - a lembrar uma personagem do Love Boat. Sentei-me ao balcão, perto do homem; Jean-Pierre sentou-se numa das mesas, a uns 3 metros. O homem, quase sem olhar para mim, meteu conversa.
- Qual é a sua doença? - perguntou-me em inglês, mas como tinha gravata e um ar circunspecto, creio que a tradução é a correcta.
- Fixação escatológica.
- Isso é uma doença?
- Agora é. Até há clínicas especializadas.
- Peste, lepra, cólera, escorbuto, malária, sida... fixação escatológica, ah! - não foi bem uma risada, pareceu mais uma interjeição de desprezo.
- Lamento desiludi-lo.
- O que o amigo lamenta é não me surpreender. Ao quinto whisky já nada me desilude. Pode beber?
- Creio que o Jean-Pierre ficaria incomodado - disse-o apontando o enfermeiro com a cabeça.
- Bem, se não pode beber whisky por causa dessa fixação começo a respeitá-lo - o sorriso agora era irónico.
- Sou incapaz de beber whisky, na verdade.
- Raios, homem, é difícil respeitá-lo, e olhe que começava a fazer um esforço.
- O último whisky que não bebi foi-me oferecido. Por cerimónia, verti o copo às escondidas para o chão.
- Que vergonha...
- Sim, foi o que senti quando o cão do dono do restaurante veio a correr lamber a poça de whisky, desmascarando-me.
- Um bom whisky?
- Old Parr.
- Podia ser pior.
- O whisky?
 - A situação. Mas diga-me lá, é abstémio?
-  Longe disso. Bebo vinho quando estou - hesitação - a trabalhar e cocktails fora do horário de expediente, digamos.
- Cocktails... Deixe-me adivinhar: os de Bond, para não abdicar da virilidade?
. Não, como Lebowski, para fingir irreverência.
- Lebows... Lebowski... não estou a ver.
- Deve ser do generation gap. É uma personagem de filme, mas todos conhecemos um na vida real.
- E o que bebe esse Lebowski?
- White russians.
- Ah, bravo. Venha um, que beberei em sua honra. Não, venham dois para mim, pois não nos podemos esquecer do Jean-Pierre.
 
cont.
 

 

 

 

 

 

publicado por Homem do pullover amarelo às 11:47
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3 comentários:
De ainextinguivel a 8 de Dezembro de 2008 às 23:24
Senhor Homem do pullover amarelo, a sua escolha de cor e o tipo de camisola é-me incompreensível, é das piores combinações que consigo imaginar, mas o seu post é cravejado de gargalhadas, não sei por onde escolher, que frase roubar, como melhor elogiar, por isso repito, cravejado de gargalhadas.
De mariana a 14 de Dezembro de 2008 às 16:11
pergunto-me,
só tens um pullover , andas sempre com o mesmo e carinhosamente apelidaram-te dessa forma para encarar a falta de higiene como extravagância
ou
tens vários pullovers iguais, para que possas andar sempre da mesma maneira, como uma imagem residual, forma de não perder tempo com o aspecto ou simplesmente passar despercebido...

é retórica, um pensamento avulso e desinteressante que democraticamente comuniquei.

gostei do texto.
De Homem do pullover amarelo a 14 de Dezembro de 2008 às 17:54
É uma pergunta de aguda pertinência, sobretudo agora que a camisa-de-forças parece ser sempre a mesma, embora na verdade seja trocada por uma fresca todos os dias. O desejo de liberdade gera imenso suor e os suiços são irrepreensivelmente asseados.

No que toca ao meu pullover amarelo, comecei com um e depois comprei outro igual. Só visto o pullover no cumprimento de obrigações profissionais, é - digamos - uma farda. Nunca fui além das duas críticas semanais, mas houve uma altura em que me tentei especializar em churrasqueiras e o cheiro dos grelhados obrigou-me a comprar o segundo pullover. Espero ter satisfeito a sua curiosidade.

Seu,

HpA

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