Domingo, 7 de Dezembro de 2008

Um pénis na Bertrand

Hoje aconteceu-me uma coisa estranha. Estava numa Bertrand, a olhar para capas de livros de modo a adiar a inevitável ida ao Jumbo, quando de repente dei com o mais inesperado dos livros: “The Book Of Big Penis”. Em edição de 30 por 30 centímetros.

 

A minha primeira reacção foi largá-lo. Depois voltei a pegar nele, verificando se alguém conhecido estava a ver-me com aquilo na mão. Aquilo, note-se, é assunto sério - tão sério que a editora é a Taschen. Um pénis grande é uma espécie de tótem da masculinidade. Parece tão auto-confiante que nos faz perder a nossa escassa confiança e ganhar raiva ao mundo e ao pénis que nos calhou. A partir do momento em que vemos um tememos que seja toda a gente assim menos nós e anda-se pela rua desconfiado, com receio de que as pessoas saibam que não temos um. É como se não tivéssemos tomado banho e temêssemos que toda a gente o notasse. Eu não via um pénis grande desde que na adolescência passara meia-dúzia de tardes a ver pornografia. 

   

É preciso explicar: há 18 anos eu não percebia muito de raparigas. (Ainda não percebo. Só aprendi a aceitá-lo.) Sabia que gostava (do cheiro, da forma como por vezes a alça do soutien ficava cai não cai de um ombro, do modo como uma coxa encurvava para a epifania de uma nádega) mas não falava com elas nem percebia como provocar uma (chamemos-lhe) aproximação. A pornografia era o único contacto possível que um rapaz baixo, escanzelado e demasiado tímido podia ter com as raparigas. Era uma espécie de prémio de desconsolação para os ausentes de lábia.

 

Mas não era para quem gostava de (e queria) mulheres. Porque tinha demasiada pila. Além disso, ver pornografia deprimia-me, ao ponto de ter chegado à única conclusão a que um autista com acne podia chegar: tu não és como estes tipos; logo, tu nunca vais ter sexo. Nunca vais ter porque não és assim. E mesmo que venhas a ter, e por mais vezes que o tenhas, nunca o terás assim. Porque aquilo é um dom. É uma autoridade natural que paira sobre todos os outros pénis. Podes esforçar-te muito, mas aquilo é a natureza. E tu não podes vencer a natureza. (Isto era um monógolo mental.)

 

Enojado e deprimido, deixei de ver pornografia. Por causa dos pénis. Sorte a minha: sem pornografia, desesperado, vi-me obrigado a perseguir mulheres. No fundo só tenho a agradecer aos pénis grandes, que não via há 18 anos.

 

Abri o livro e lá estavam eles na sua arqueada glória. Constatei com alegria que já não sentia tristeza ou inferioridade por não pertencer ao clube dos eleitos. Fechei o livro e fui às compras. Num breve monólogo que mantive comigo mesmo, disse-me que um adulto heterossexual estar a folhear calmamente um livro com imagens de pénis numa Bertrand em pleno sábado à tarde era sinal de crescimento. (Mas não o suficente para a Taschen se lembrar de mim na segunda edição.)

publicado por João Bonifácio às 02:29
link do post | comentar
1 comentário:
De isa a 7 de Dezembro de 2008 às 04:25
:-D

Comentar post

Autores

Pesquisar

Últimos posts

Contra nós temos os dias

Do desprezo pela história...

É urgente grandolar o cor...

Metafísica do Metro

A Revolução da Esperança

Autores do Condomínio

Hipocondria dos afectos

A família ama Duvall

Notícias do apocalipse

Meia idade comparado com ...

Arquivo

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

tags

todas as tags

Subscrever