Sábado, 6 de Dezembro de 2008

Os Direitos dos Cartoons

Alguém já deve ter escrito a frase algures: o homem é o cartoon de Deus. Se não escreveu, devia ter escrito. O homem é, de facto, a criação mais engraçada do divino. Nota-se no desenho dos homens que os traços não foram estendidos no papel ao acaso. Basta olhar à volta: há uma notória maldade nestas criações divinas. Quem nos desenhou fê-lo com a maldadezinha necessária ao olhar do sátiro. Aquele olhar que começa por embalar os objectos da sua verve com ternura para logo os chicotear com a arma do humor. Dito de uma forma mais curta e directa: o velho (se existir, claro) certamente divertiu-se muitíssimo no recato do seu atelier quando nos desenhou a todos.

 

Também me diverti muito, confesso, na minha ida ao Porto para participar no júri do X Porto Cartoon – World Festival. Diverti-me e cresci – outra forma de divertimento, pois. Cresci porque tive oportunidade de, num curto período de tempo, passar os olhos por muitas obras de qualidade e rasgo desse cartoon de Deus que é o homem. Por muitos cartoons desenhados por cartoons. O tema, esse, não poderia ser mais apropriado à mistura: Direitos Humanos. Que, para continuar na mesma linha de raciocínio, são os Direitos dos Cartoons. (Não, não era minha ideia transformar esta nota numa confusão, mas, por força do delírio da pena, aconteceu; peço desculpa).

 

Fixemo-nos nos trabalhos vencedores. Podia deixar aqui um comentário cartoonisticamente correcto e dizer que me foi indiferente o facto de ter sido o lusitano Augusto Cid a vencer a edição do Porto Cartoon em que participei como júri. Mas não: assumo que senti um certo orgulho. Não especificamente pelo facto de o premiado ter sido um português. Mas pelo facto de o melhor trabalho em concurso ter sido criado por um português – o que é muito diferente. O “olímpico” trabalho de Augusto Cid causou logo uma impressão forte em todos os membros do júri. E teria sido uma injustiça não galardoá-lo com o primeiro dos prémios.

 

 

 

 

Mas se o trabalho de Cid tinha uma forte componente humorística (provoca o riso, pronto), o trabalho que ficou em segundo lugar, da autoria do turco Muhittin Koroglu, dá origem ao mais difícil e ao menos habitual dos sorrisos – o sorriso irónico, filho do humor e da melancolia. Cinco homens apontam armas para uma porta de onde vem a luz. A situação, supremamente absurda, está consagrada com mestria. E é prova de que o cartoon não tem de ser necessariamente uma arte directa. A metáfora também cabe – e bem - no género.

 

 

 

Saltemos por fim para os trabalhos que ficaram em terceiro lugar – o do brasileiro Dálcio Machado e o do sul coreano Taeyong Kang. Ambos excelentes trabalhos com objectivos, traços e resultados diversos. O do primeiro trata da questão do racismo e o segundo da escassez (neste caso) de peixe que existe nos mares de um mundo que se vai esgotando. Dois temas pertinentes. Dois artistas de talento. Dois trabalhos de excepção. Este ano foi assim – dizem os repetentes do júri, pessoas com quem aprendi bastante sobre esta arte. Havia trabalhos tão bons a concurso que foi muito difícil escolher os melhores. Sinto-me sortudo também por isso.

 

 

 

 

 

 

 

(Texto incluído no livro sobre a edição 2008 do Porto Cartoon).

publicado por Nuno Costa Santos às 14:37
link do post | comentar

Autores

Pesquisar

Últimos posts

Contra nós temos os dias

Do desprezo pela história...

É urgente grandolar o cor...

Metafísica do Metro

A Revolução da Esperança

Autores do Condomínio

Hipocondria dos afectos

A família ama Duvall

Notícias do apocalipse

Meia idade comparado com ...

Arquivo

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

tags

todas as tags

Subscrever