Quinta-feira, 4 de Dezembro de 2008

O problema da cunha

 

O problema da cunha não é o tráfico de influências. O problema da cunha é que não funciona. Na maior parte das vezes não funciona. Ok, todos conhecemos casos de filhos e sobrinhos e enteados e afilhados que foram colocados em lugares-chave depois de telefonemas feitos à hora certa com o tom de voz certo, mas a pergunta que faço é: quantos filhos, sobrinhos, enteados e afilhados ficaram por beneficiar no processo – também ele moroso e burocrático – da cunha? Quantos cidadãos ficaram condenados a vidas de miséria quando podiam ter chegado lá por via de uma cunha eficiente e eficaz – aquelas como devem ser? O sistema da cunha ainda é mais lento do que o sistema de justiça. Isso chateia.

 

Sim, em Portugal nem mesmo a cunha funciona. Fica a meio, normalmente. A cunha até pode ser bem pensada, bem feita, bem praticada – o jantarinho até estava bom, o vinho impecável, a sobremesa um mimo, a conversa do melhor. Mas depois, nos dias a seguir, o engenheiro nosso amigo vai adiando o momento de dizer à secretária para ligar ao departamento de recursos humanos. Esquece-se. Perde o post-it. Manda a nota para lavar com as calças de bombazina. E o processo da cunha, que até começou bem, falha redonda e implacavelmente. Deixando, como se costuma dizer, um gajo apeado. Um gajo sonha, faz planos e depois dá nisto. O melhor é ficar quieto.

 

Há pessoas que levam cinco, dez anos à espera que uma cunha se resolva – o que é inaceitável. A cunha, a boa cunha, devia ter efeitos na hora. Um tipo devia ir à Loja do Cidadão, esperar dois ou três minutos, ser atendido por um funcionário amável e ir para casa já colocado num lugarinho de eleição. Assim é que era. Mas não. Um tipo mete uma cunha e sofre – por si e pelo primo que quer ver com uma vida feliz e desafogada. E que todos os dias liga a perguntar “se já há novidades”. Não, não há novidades. Até que chega o dia em que se deixa de atender o telefone. Por vergonha. Ele apostou tudo na nossa capacidade de pôr uma cunha e afinal os resultados são nulos. É todo um prestígio que vai por água abaixo. É  humilhante ser incompetente a pôr uma cunha.

 

 

Por tudo isto, talvez seja conveniente colocar a notinha no frigorífico ainda antes de 2009: não à cunha. Sim, à apresentação  - directa, sem mediações - do talento próprio. Mais vale ir bater à porta do engenheiro ou apanhá-lo nos mictórios do que esperar que “aquela conversa”  tenha qualquer tipo de seguimento. Chegou a altura de apresentar o caparro ao próprio do empregador. De fazer o número à frente de quem decide e coloca cidadãos no quadro. É mais eficaz. Dá mais possibilidades de emprego. Para quê pôr uma cunha para fazer um table dance num bar em Alfornelos (que, com certeza, não vai funcionar) se posso fazer uma demonstração no momento no snack em frente? Para quê pedir a um amigo de um amigo para dizer a um amigo de um cunhado para dar um toque para publicar um livro numa editora se posso raptar o editor e obrigá-lo a ouvir os meus poemas de fio a pavio numa bicha para a ponte? A cunha é uma merda. Dá muito trabalho e não leva a lado nenhum.

publicado por Nuno Costa Santos às 10:24
link do post | comentar
3 comentários:
De andreia moreira a 4 de Dezembro de 2008 às 16:00
"Stôr" peço desculpa pela invasão mas não resisti. Muito bom este texto e carregadinho de uma ironia deliciosa como lhe é hábito.

"Mais vale morrer de pé do que viver ajoelhado."

Quando se metem cunhas vêm sempre umas rezas ou outras à baila porque o pai Natal não existe e o altruismo escasseia. Para se viver bem, a meu ver, deve-se prezar a LIBERDADE para se poder ser quem se quer ser, com (ou sem) valor.





De Nuno Costa Santos a 5 de Dezembro de 2008 às 01:46
Thanks, Andreia. Boas escritas (bom saber-te leitora destes sintomas sinusíticos).
De andreia moreira a 5 de Dezembro de 2008 às 10:00
Xiiii. Não me ignoraste. Tens noção que passas a ter uma "comentadeira" residente? eh eh.

Comentar post

Autores

Pesquisar

Últimos posts

Contra nós temos os dias

Do desprezo pela história...

É urgente grandolar o cor...

Metafísica do Metro

A Revolução da Esperança

Autores do Condomínio

Hipocondria dos afectos

A família ama Duvall

Notícias do apocalipse

Meia idade comparado com ...

Arquivo

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

tags

todas as tags

Subscrever