Terça-feira, 2 de Dezembro de 2008

história do cronista e dos gatos que o ensinaram a perder tempo

Sou um homem com dois gatos para criar. Foi uma coisa inesperada. Não planeada. Aconteceu. Juro. Assim à laia de noite de loucura. Agora, arco com as consequências. A literatura, o trabalho, a casa, eu próprio, nada disto foi mais o mesmo. Dou por mim pasmado a olhar-lhes os focinhos imóveis, os olhares imperscrutáveis, os instantes repentinos em que se desatam a coçar ou lamber alucinadamente. Em vez de escrever. Em vez de trabalhar. Em vez doutra coisa qualquer. Porque outra coisa qualquer seria mais útil.

 

É bizarro. E estou preocupado. A família não me preparou para isto. Nem a escola. Nem a Filosofia. Nem os anos de trabalho que levo. Uma pessoa educa-se para as finalidades, para a consequência, para a produção. E acaba a esbanjar horas do dia, dias a fio, a limpar dejectos em caixas de areia, derramar ração sobre tigelas anacronicamente infantis, a fazer festas e cócegas e a levar marradinhas e a perdoar-lhes cruzarem-me o teclado a correr, para cá e para lá, perseguindo-se, resultando em belas prosas de texto, ready made, deste estilo:

 

Wwwwwwwwwwwwwwwwghbcnsiuyhrn38iznbmfiou7ewnfcmovuu7hb323 klfujjhaoanmddddddddddddçlkvjhklbooooooooooooooo

 

Eles gostam de insistir nalgumas teclas. Às vezes, quase reproduzem sequências exactas da “Ode Triunfal”. Mas não sei que espécie de felinos teria Álvaro de Campos. Nem que lhes deu ele a ler, se mais os franceses, se mais os anglo-saxónicos.

 

Pior. Há angústia. Não pelo que não estou a fazer, a produzir, a avançar. Mas por não estar mais com eles. Sobretudo, pela impossibilidade de entrar naquelas pequenas cabeças adornadas de bigodes e orelhas desmesuradas. Há dias, leitor, em que fico à espera de ouvi-los rir. Haverá medicação para isto?

 

Tenho a casa a cheirar a gato. Perco preciosos quartos de hora de manhã a aspirar a areia que espalharam pelo chão da cozinha numa interessante instalação pós-moderna. E a cumprimentá-los e abrir-lhes a porta e falar com aquela voz de desenho animado que todos imbecilmente fazemos quando nos dirigimos a animais domésticos.

 

E creio que isto nunca irá a lugar nenhum. Mas também nunca será melhor. Tê-los a dormir sobre nós ou a andarem-nos entre as pernas quando se regressa de fim-de-semana. É um amor parvo e inútil. Comme il faut. Mas chateia-me que nunca possam vir a ler este texto. E a limitar-se a um curto gesto de cabeça, bigodes e orelhas desmesuradas, de aprovação ou censura. Não pedia mais.

 

Por outro lado, ao menos não dão palpites. E têm um silêncio e uns gestos indolentes e demorados com que talvez venha ainda a aprender.

publicado por Alexandre Borges às 01:15
link do post | comentar
12 comentários:
De mdsol a 2 de Dezembro de 2008 às 20:21
Assim de repente: o Kubrick dos filmes gostava de gatos, o Eugénio da poesia gostava de gatos...sei lá... talvez ajude ...
:)))
De Alexandre Borges a 3 de Dezembro de 2008 às 15:02
Ajuda, sim. Fico em muito boa companhia.
Obrigado.
De escrivaninha a 3 de Dezembro de 2008 às 23:32
Adorei! É tudo tão verdade para os donos de animais que inopinadamente se tornaram "os nossos domésticos" e nos domesticaram. E aquela da voz de desenho animado...é mesmo assim; e mesmo agora, que fiquei com a consciência disso, não consigo evitar. Paciência! Espero não lhes parecer muito ridícula (aos gatos, entenda-se)!
De Alexandre Borges a 4 de Dezembro de 2008 às 13:13
Lá está: mesmo que lhes pareça, eles mantêm a discrição. Fazem reserva sobre o assunto. Obrigado, escrivaninha.
De isa a 4 de Dezembro de 2008 às 19:13
grande alexandre, que saudades :-)
bjs
De Alexandre Borges a 4 de Dezembro de 2008 às 19:31
Estava a ver que não aparecias, Isa...
Obrigado, como sempre.
De Isa a 5 de Dezembro de 2008 às 11:07
Tou sempre aqui :-)
De Sofia Bragança Buchholz a 5 de Dezembro de 2008 às 19:48
Adorei, Alexandre. Conheço bem esse "perder de tempo" com esses seres de bigodes e orelhas desmesuradas... ;-)
De Alexandre Borges a 5 de Dezembro de 2008 às 22:42
Obrigado, Sofia. Dado que não apareço muito pelo 31, é um prazer ter a tua visita pelo Sinusite.
De isa a 6 de Dezembro de 2008 às 16:34
a gente tem dado por isso e tem sentido a tua falta :-) bjs
De d. ester a 6 de Dezembro de 2008 às 19:11
os gatos são desarmantes e inquietantes. De vez em quando fixam-se em pontos que nos parecem vazios, sem besouro nem mosca identificável na mira. Depois voltam a dar umas voltas sobre si mesmos, lambem uma pata, e fecham os olhos como se nada fosse, deixando-me feita parva a contemplar a parede que os interessava.
De Berta a 10 de Dezembro de 2008 às 18:39
Nunca gostei da ideia de ter animais de estimação, nem particularmente de gatos mas sem perceber como nem porquê (talvez por piedade) aceitei ficar com uma gatinha achada na rua, quase a morrer de diarreia. Dei por mim a passar por todo o processo que descreve e achei por isso o seu post muito engraçado.

Comentar post

Autores

Pesquisar

Últimos posts

Contra nós temos os dias

Do desprezo pela história...

É urgente grandolar o cor...

Metafísica do Metro

A Revolução da Esperança

Autores do Condomínio

Hipocondria dos afectos

A família ama Duvall

Notícias do apocalipse

Meia idade comparado com ...

Arquivo

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

tags

todas as tags

Subscrever